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Além da Placa de Mordida: Uma Nova Escuta para o Bruxismo

Foto do escritor: Airton Calmo
Airton Calmo
28 de fev.
5 min de leitura

Atualizado: 30 de ago.

Durante mais de quatro décadas, meu trabalho esteve ligado à Odontologia. Aprendi a reconhecer a anatomia, diagnosticar alterações, restaurar estruturas e buscar, através da técnica, respostas para aquilo que o corpo apresentava.

O consultório odontológico me ensinou muito sobre precisão.

A Psicanálise me ensinou a desconfiar daquilo que parece preciso demais.

O bruxismo talvez seja um dos lugares onde essas duas experiências se encontram de maneira mais evidente.

Durante muito tempo, o ranger ou apertar dos dentes foi compreendido predominantemente como uma parafunção, um comportamento muscular a ser identificado, controlado e, sempre que possível, protegido por dispositivos como a placa oclusal.

A placa pode ter sua função. Mas uma pergunta permanece: o que acontece com aquilo que a placa não consegue escutar?


O dente não range sozinho


O dente não range sozinho. Quem range é o sujeito.

Essa afirmação não pretende negar a fisiologia, a neurologia, a odontologia ou os múltiplos fatores envolvidos no bruxismo. Pretende apenas deslocar o olhar.

Existe um organismo. Existe uma musculatura. Existem dentes, articulações, hábitos, sono e inúmeras variáveis que podem participar do fenômeno.

Mas existe também alguém que vive nesse corpo. E esse corpo não é apenas anatômico.

É um corpo marcado por experiências, relações, desejos, conflitos, perdas, exigências e palavras.

É aquilo que poderíamos chamar de corpo falante.

Nesse sentido, o bruxismo torna-se particularmente interessante para a Psicanálise porque nos coloca diante de uma fronteira: onde termina o organismo e começa o sujeito?

Talvez a resposta seja que essa fronteira nunca tenha sido tão nítida quanto imaginamos.


Quando o corpo fala


O corpo pode expressar aquilo que não conseguimos formular conscientemente. Mas isso não significa que cada sintoma possua uma tradução pronta. Não existe um dicionário psicanalítico segundo o qual determinado sintoma corresponda automaticamente a determinado conflito.

O sintoma é singular. Ele pertence à história daquele sujeito.

Por isso, a pergunta analítica não deveria ser simplesmente: “O que significa ranger os dentes?”

Mas: “O que significa esse ranger de dentes para este sujeito?”

Essa diferença é fundamental.

Ela nos afasta da tentação de transformar a Psicanálise em uma máquina de produzir explicações para o corpo e nos aproxima de sua verdadeira vocação: escutar a singularidade daquele que sofre.


Além da placa


A placa de mordida pode proteger dentes. Pode reduzir determinadas consequências mecânicas. Pode fazer parte de uma estratégia terapêutica, mas ela não pergunta por que aquele sujeito aperta os dentes.

E talvez não precise perguntar. A função da Odontologia é outra.

É justamente por reconhecer a importância dessa diferença que a experiência odontológica pode encontrar a experiência psicanalítica sem que uma precise ocupar o lugar da outra.

O problema começa quando acreditamos que uma única linguagem pode dar conta de todo o fenômeno.

Há momentos em que precisamos tratar o organismo. Há momentos em que precisamos escutar o sujeito. E há situações em que precisamos fazer as duas coisas.


O luto da técnica


Minha passagem da Odontologia para a Psicanálise foi também uma passagem entre diferentes formas de intervenção.

Na Odontologia, aprendi a intervir diretamente sobre a matéria: ajustar, restaurar, reconstruir, substituir.

Na Psicanálise, a intervenção acontece por outra via. Não se trata de consertar o sujeito. Trata-se de escutá-lo.

Chamo essa passagem de luto da técnica.

Não porque a técnica odontológica tenha perdido seu valor, mas porque precisei reconhecer que há sofrimentos diante dos quais a habilidade manual, por mais sofisticada que seja, encontra seu limite.

A broca pode alcançar o dente. A escuta tenta alcançar aquilo que se constitui na palavra.

São trabalhos diferentes. E justamente por serem diferentes podem, e precisam, dialogar.


Uma nova escuta para o bruxismo


Talvez seja esse o sentido de colocar a Odontologia no divã. Não significa abandonar a Odontologia. Significa perguntar o que ela não consegue responder sozinha.

O bruxismo pode continuar sendo estudado como fenômeno fisiológico, comportamental e clínico. Mas pode também ser escutado como sintoma de um sujeito.

Entre o corpo anatômico e o corpo falante existe um espaço que nenhuma placa consegue ocupar.

É nesse espaço que a Psicanálise pode começar a perguntar.

E talvez a pergunta mais importante não seja: “Como fazer esse sujeito parar de ranger os dentes?” .Talvez seja possível apenas amenizar o sintoma e reduzir ou reparar o dano.

Entretanto cabe outro questionamento: “O que esse sujeito está vivendo enquanto o seu corpo começa a manifestar aquilo que ele ainda não encontrou palavras para expressar?”


Sobre este texto


Este ensaio parte das questões desenvolvidas no livro Bruxismo – A Odontologia no Divã: um ensaio sobre a falta, os afetos e as circunstâncias, no qual procuro aprofundar a relação entre corpo, sintoma e experiência subjetiva.


Este texto foi originalmente publicado em 2026 e é aqui revisto e ampliado como parte da reorganização dos escritos que acompanham minha trajetória da Odontologia à Psicanálise. A versão original permanece ao final como registro dessa passagem.

Neste espaço, compartilho uma trajetória de mais de 40 anos entre a precisão do consultório odontológico e a profundidade da escuta analítica. O bruxismo, tradicionalmente visto como uma "parafunção" mecânica, revela-se, sob a lente da psicanálise, como um fenômeno muito mais complexo: um sintoma que habita o hiato entre o corpo anatômico e o corpo falante.


Trecho do Livro:

"O dente não range sozinho. Quem range é o sujeito. [...] Ao colocar a odontologia no divã, pretendo investigar as lacunas de um saber que se tornou exímio em restaurar a forma, mas que muitas vezes emudece diante do sofrimento que deforma a matéria."

Convido você a conhecer meu novo livro, "Bruxismo: A Odontologia no Divã", onde exploro como o ranger dos dentes pode ser lido como um "grito mineralizado" de quem não encontra palavras para sua angústia.

Além da leitura, convido-os para uma conversa descontraída sobre os textos de Freud no meu canal do YouTube, Chimarreando com Freud, onde unimos a tradição do mate gaúcho à exploração do inconsciente.

2. LinkedIn (Foco na Interdisciplinaridade)

Título: O Luto da Técnica e o Nascimento da Escuta

Como profissionais de saúde, somos frequentemente treinados para "consertar" o que está quebrado. Mas o que acontece quando a técnica, embora perfeita, não silencia a dor? No meu ensaio "Bruxismo: A Odontologia no Divã", discuto a necessidade de uma "clínica do sujeito" que vá além do organismo biológico.

Trecho do Livro:

"Migrar da odontologia para a psicanálise implica atravessar aquilo que chamo de luto da técnica. Trata-se de abrir mão da intervenção direta — a broca, a restauração, o ajuste preciso — para apostar na intervenção indireta da escuta e da interpretação."

O bruxismo é um sintoma emblemático da nossa contemporaneidade — da "sociedade do cansaço" e da hiperprodutividade. Compreender essa complexidade é um passo ético fundamental para qualquer clínico.

Saiba mais sobre essa travessia no meu livro e acompanhe reflexões semanais sobre teoria psicanalítica de forma acessível no canal Chimarreando com Freud. Vamos conversar com Freud enquanto tomamos um chimarrão?


 
 
 

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Psicanálise para pensar a vida além das respostas prontas.
Autor de Chimarreando com Freud.
Reflexões sobre inconsciente, sonhos, cultura e cotidiano.

© 2026 Airton Calmo — Psicanalista, autor e pesquisador.

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