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As vozes de África precisam ser escutadas. Um depoimento sobre escuta, distância e pertencimento

Foto do escritor: Airton Calmo
Airton Calmo
10 de out. de 2024
7 min de leitura

Atualizado: 30 de ago.

Durante a década de 1990, vivi e exerci a Odontologia em Portugal.

Anos mais tarde, já em outro momento da minha trajetória profissional, a passagem da Odontologia para a Psicanálise trouxe consigo uma experiência que eu não havia planejado. Alguns antigos colegas dentistas, no Brasil e em Portugal, passaram a procurar meu trabalho como psicanalista.

Um deles, em uma expressão que guardei com carinho, chegou a me chamar de “o analista dos dentistas raízes”. A expressão é bem-humorada, mas esboça algo verdadeiro.

Meus primeiros atendimentos psicanalíticos foram, em parte, construídos a partir de pessoas que compartilhavam comigo a experiência da Odontologia. Talvez imaginassem que uma história profissional comum pudesse facilitar a compreensão de suas angústias.

Eu sempre precisei fazer uma ressalva. A experiência profissional anterior a atividade do psicanalista não garante coisa alguma.

Em Psicanálise, não se trata de encontrar alguém que conheça previamente o território que o outro percorrerá.

Cada análise começa justamente onde termina aquilo que podemos supor saber sobre o outro.

O trabalho analítico nasce daquilo que o analisando traz — e da possibilidade de escutá-lo em sua singularidade.

Foi essa experiência que começou a modificar também minha maneira de compreender o atendimento online.


O consultório atravessa o oceano


Quando decidi assumir a Psicanálise como atividade profissional, o atendimento online apareceu inicialmente como uma continuidade quase natural da experiência que eu já havia vivido com pessoas de Portugal.

O horizonte imaginado era relativamente previsível. Pensava em brasileiros residentes no exterior. Portugal seria provavelmente o principal eixo dessa procura. Talvez outros países europeus. Eventualmente Estados Unidos ou Austrália.

A realidade, entretanto, começou a produzir outra geografia.

As vozes vinham também da África.

E essa descoberta me obrigou a prestar atenção a outro contexto.

Não apenas porque haviam pessoas interessadas em análise do outro lado do Atlântico, mas porque, pela primeira vez, percebi que minha própria ideia de “brasilidade” estava sendo confrontada por uma geografia muito mais ampla.


O outro lado do Atlântico


Brasil e África possuem uma história profundamente entrelaçada.

Essa afirmação, embora evidente, nem sempre esteve presente na formação da nossa consciência coletiva. Fomos educados durante muito tempo por uma narrativa que privilegiou determinadas raízes europeias e tratou outras como secundárias, quando não tentou simplesmente apagá-las.

A história brasileira não pode ser compreendida sem a África.

Nossa língua, nossa música, nossa culinária, nossa religiosidade, nosso corpo, nossas formas de sociabilidade e inúmeras dimensões daquilo que reconhecemos como cultura brasileira carregam marcas profundas dessa presença.

Ainda assim, existe uma distância simbólica entre o Brasil e o continente africano que não corresponde à proximidade histórica entre ambos.

É como se uma parte da nossa própria história tivesse sido colocada fora do campo de visão.

E talvez seja necessário perguntar por quê.


Uma palavra que exige cuidado: recalque


Como psicanalista, sou tentado a utilizar uma palavra conhecida: recalque.

Mas é preciso cuidado.

Não se pode simplesmente aplicar um conceito clínico individual a uma sociedade inteira como se uma coletividade possuísse um inconsciente idêntico ao de um sujeito em análise.

Ainda assim, a Psicanálise pode oferecer uma metáfora provocadora para pensar aquilo que uma cultura procura afastar de sua consciência, embora continue presente em sua história e na sua alma.

Nesse sentido, talvez possamos falar — metaforicamente — de uma negação histórica de nossas raízes africanas.

Isso não configura um diagnóstico, surge apenas como uma questão. Como pergunta.

O que uma sociedade perde quando tenta esquecer uma parte constitutiva de sua própria história?

E o que acontece quando aquilo que foi afastado retorna?


A surpresa veio da África


Minha intenção inicial, ao divulgar o trabalho psicanalítico online, estava relacionada sobretudo à experiência brasileira no exterior.

Entretanto, a resposta mais significativa começou a surgir de outro lugar. Da África.

Isso produziu em mim uma espécie de deslocamento. Percebi que não bastava imaginar que estava levando uma determinada experiência brasileira de Psicanálise para outros lugares do mundo.

Eu também tenho sido chamado a escutar. E escutar verdadeiramente implica reconhecer que o outro não existe para confirmar aquilo que já pensamos saber.

Existem histórias diferentes. Outras experiências coloniais. Outras formas de viver a família, a comunidade, a religiosidade, o corpo, a ancestralidade e o sofrimento.

Mesmo quando compartilhamos uma língua, não compartilhamos necessariamente os mesmos significados.

A língua portuguesa atravessou o Atlântico. Mas os sujeitos que a falam não atravessaram a mesma história.


O português não é uma experiência única


Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e São Tomé e Príncipe pertencem ao espaço dos países africanos em que o português possui estatuto oficial. Mas a língua não apaga as diferenças.

Ao contrário. Um mesmo idioma pode carregar mundos diferentes. Uma palavra pode adquirir outro sentido. Um silêncio pode significar outra coisa.

Uma forma de sofrimento pode encontrar outra maneira de ser narrada.

E é justamente aí que a Psicanálise encontra uma questão fundamental: como escutar alguém sem reduzir sua experiência às categorias que já conhecemos?


Escutar também é deslocar-se


Talvez esta seja a principal transformação provocada por essa experiência. Eu imaginava oferecer uma escuta. Entretanto, a África me ensinou que, antes disso, eu precisava aprender a escutar o lugar de onde essa voz vinha.

Isso significa reconhecer meus próprios limites, estudar mais, conhecer outras histórias e abandonar algumas certezas.

Não se trata de transformar a Psicanálise em Antropologia. Nem de imaginar que a experiência psicanalítica possa ser transportada intacta de uma cultura para outra.

Trata-se de reconhecer que não existe escuta sem contexto.

O sujeito fala a partir de uma história.

E o analista também.


As vozes de África


Hoje, quando penso naquela primeira expectativa de encontrar brasileiros vivendo longe do país, percebo que havia algo excessivamente centrado em mim mesmo.

Eu pensava em brasileiros procurando uma escuta brasileira. A África, entretanto, apresentou outra possibilidade.

Talvez a questão não seja levar uma determinada Psicanálise para algum lugar. Talvez seja permitir que o encontro transforme ambos os lados.

Há pessoas do outro lado do Atlântico.

Pessoas que vivem, desejam, sofrem, sonham e procuram palavras para aquilo que ainda não conseguem dizer.

Não precisam ser traduzidas para caber em nossas categorias.

Precisam ser escutadas.

E talvez seja justamente isso que esteja começando a acontecer.


Uma trilha que continua


Hoje compreendo essa experiência como parte de uma caminhada que ainda não terminou.

A escuta levou-me da Odontologia à Psicanálise. A Psicanálise levou-me ao encontro de outras culturas.

E esse encontro começa agora a me conduzir para questões que ultrapassam os limites tradicionais do consultório.

Talvez seja essa a razão pela qual a ideia de trilha tenha adquirido para mim um significado tão particular. Não se trata de possuir um mapa definitivo. Trata-se de caminhar, encontrando pelo caminho aquilo que ainda não sabíamos que procuraríamos.

As vozes de África foi uma dessas descobertas.

E talvez o primeiro compromisso diante delas seja simplesmente este: escutar.



Este texto foi originalmente publicado em 2024 e é aqui revisto e ampliado, em 2026, como parte da reorganização dos escritos que acompanham minha trajetória da Odontologia à Psicanálise. A versão original permanece ao final como registro dessa passagem.

Durante a década de 90 do século XX residi e exerci Odontologia em Portugal.

Atualmente, após anos em formação e transição para a prática clínica da Psicanálise, acho natural que surgissem demandas analíticas de antigos colegas dentistas, tanto do Brasil quanto d'além mar.

Tornei-me então “o analista dos dentistas raízes”, no dizer de um ex-colega que atualmente se encontra em trabalho psicanalítico comigo, embora eu não tenha essa intenção nem proponha tal exclusividade.

De fato, meus primeiros trabalhos como psicanalista surgiram com, e a partir de colegas que ainda atuam na odontologia. Alguns seguem comigo, em psicoterapia psicanalítica, na busca basicamente, de significação para suas existências. Imaginam que a longa experiência clínica na profissão aproxime nossa visão e facilite a compreensão de suas angustias. No entanto, sempre esclareço que o trabalho psicanalítico é extremamente individualizado e minha experiência na odontologia não oferece nenhuma garantia de solução, como de resto nenhuma experiência anterior pode oferecer. O trabalho em Psicanálise surge de quem se propõe analisar, ou seja, do próprio analisando.

Decidi então, ao assumir a Psicanálise como atividade profissional, aceitar atendimento online. Baseado na experiência prévia do atendimento digital efetivado inicialmente com os pacientes de Portugal; optei por oferecer meu trabalho através de anúncios patrocinados no Google. Arriscando parecer pretensão extrema, proponho atendimento em português para brasileiros residentes no exterior. Se houver interesse em conhecer mais sobre o meu trabalho, sugiro acessar https://www.airtoncalmo.net/

Ao promover minha atividade online, confesso, focava em Portugal, talvez Europa, eventualmente Estados Unidos ou Austrália onde sei que existem muitos brasileiros residentes. No entanto, e para minha grata surpresa, vem surgindo uma crescente demanda por consultas a partir da África.   

Neste momento quero reconhecer uma limitação. É possível, inclusive, que essa limitação se estenda ao povo brasileiro em geral. Dos nove países que têm o português como língua oficial, em ordem alfabética: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste; seis deles se localizam “em” África.

Os países africanos que tem a língua portuguesa como língua oficial são: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, São Tomé e Príncipe. Todos se comunicam em português, embora como nós brasileiros, falem com diferentes sotaques e remetam algumas palavras a significações diversas das nossas e mesmo do original português.

O Brasil passa na atualidade por um processo de reconhecimento de suas inegáveis raízes oriundas da África. Embora tenhamos sidos criados e educados numa falsa e cruel ideia de “branqueamento” da cultura brasileira, fruto de muitos anos de negação (Freud saberia dizer), considero que já passou da hora do Brasil, e de nós brasileiros, deixarmos de estar de costas para a África.

Psicanaliticamente falando, a Negação é uma das raízes do Recalque.

Nós, brasileiros, temos recalcado há séculos nossos laços com os irmãos africanos, em particular os falantes da mesma língua original portuguesa.

Reconheço como pode ser triste lembrar que já fomos, noutros tempos, parte de uma mesma nação colonial que, se explorou ambos os continentes, também deixou como legado uma língua matriz comum que quer nos unir.

Já passou da hora de olharmos para o outro lado do Atlântico como uma parte esquecida de nós, Recalcada de forma proposital por uma colonização interna de nossas mentes.

A publicação pretenciosa que fiz de oferecimento de trabalho psicoterapêutico, confesso, foi focada na compreensão de brasilidade com que me fui construindo através dos anos. Entretanto a resposta mais gritante está brotando da África. É necessário reconstruir alguns conceitos. Tratar de aprender um pouco mais sobre países como Angola, Moçambique e outros lusofalantes, mas, acima de tudo ouvir as vozes que estão solicitando serem ouvidas do outro lado do oceano. Lá existem pessoas e precisamos escutá-las.



 
 
 

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Psicanálise para pensar a vida além das respostas prontas.
Autor de Chimarreando com Freud.
Reflexões sobre inconsciente, sonhos, cultura e cotidiano.

© 2026 Airton Calmo — Psicanalista, autor e pesquisador.

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