ATM – a “terceira cintura”, onde o corpo e a alma falam o que a mente silencia
Atualizado: 30 de ago.

A articulação temporomandibular (ATM) costuma ser lembrada apenas como uma estrutura anatômica complexa, responsável por movimentos essenciais como mastigar, falar e bocejar.
Ao longo de mais de quatro décadas de prática clínica odontológica, aprendi a vê-la também de outro modo: um espaço privilegiado onde o corpo deposita tensões que nascem muito antes da musculatura — tensões emocionais, afetivas, existenciais. Resumidamente: questões psíquicas manifestadas concretamente no corpo físico como um distúrbio.
Se o corpo fala, a ATM grita.
A “terceira cintura” é o lugar onde o corpo, a mente e a alma tentam se equilibrar
Temos no corpo duas cinturas clássicas: a escapular e a pélvica. Entretanto, existe uma terceira, menos lembrada, que não estabiliza apenas o corpo — por vezes, estrutura também a experiência subjetiva.A ATM funciona como um eixo de sustentação entre o que sentimos e o que conseguimos simbolizar. Quando esse eixo falha surgem dores, travamentos, estalos, fadiga muscular. Não raro, esses sintomas aparecem em momentos de crise, perda, incerteza ou sobrecarga emocional. Em odontologia essas manifestações são bastante conhecidas e configuram uma patologia descrita como bruxismo.
Bruxismo é um comportamento caracterizado pelo apertamento ou ranger dos dentes, que pode ocorrer durante o sono (bruxismo do sono) ou durante a vigília (bruxismo em vigília). Ele não é apenas um “hábito ruim”: é um fenômeno multifatorial que envolve sistema nervoso central, regulação emocional, padrões de estresse e respostas musculares automáticas.
Mas, o Bruxismo não é apenas ranger ou apertar os dentes. É um comportamento motor complexo, muitas vezes disparado por tensões emocionais que o sujeito não consegue elaborar conscientemente. Quando a palavra falha, a mandíbula aperta. Quando a angústia sobe, o corpo responde com força. O bruxismo, nesse sentido, é uma tentativa muscular de conter o que escapa no plano psíquico.
A fala do corpo — quando a palavra não dá conta
Freud nos ensinou que a cura passa pela fala. Lacan ampliou o conceito acrescentando que a angustia é “o afeto que nunca engana”.Mas o que acontece quando a palavra não encontra saída?Quando o sujeito não consegue nomear aquilo que o atravessa? O corpo assume a tarefa,e a ATM, por sua posição e função, torna-se um dos principais palcos dessa expressão.
O ranger dos dentes, o apertamento noturno, a mandíbula que trava, a fratura pontual de elementos dentários — tudo isso pode ser lido como um grito silencioso da angústia frente ao elemento desconhecido.É o corpo dizendo: “há algo aqui que precisa ser escutado.”
A clínica como lugar de escuta — inclusive do corpo
Através de uma recente consulta familiar, percebi novamente como a ATM pode revelar aquilo que não foi dito.A dor mandibular não era apenas dor: era mensagem.Era a fala do corpo pedindo tradução. A fratura dentária, o abcesso infeccioso subsequente foram a manifestação clínica, orgânica, da angustia retida.
Cabe aqui outra conceituação derivada da clínica odontológica:
Disfunção Temporomandibular (DTM) é um termo que engloba um conjunto de alterações que afetam a articulação temporomandibular (ATM), os músculos da mastigação e estruturas associadas. Não se trata de uma única doença, mas um complexo de sinais e sintomas que podem incluir dor na mandíbula, face, têmporas ou pescoço; estalos, crepitações ou ruídos articulares; limitação ou desvio na abertura da boca; travamento mandibular; fadiga muscular; cefaleias tensionais. Frequentemente, a forma mais visível e que facilita o diagnóstico são as fraturas e excessivos desgastes dentários, muitas vezes acompanhados de inflamação dental e/ou periodontal.
A DTM é profundamente influenciada por fatores emocionais, comportamentais e psicossociais. Estresse, ansiedade, angústia, conflitos internos e dificuldades de simbolização podem atuar como gatilhos ou amplificadores dos sintomas.
Em outras palavras: A DTM é a manifestação clínica na qual o corpo pode expressar as tensões que muitas vezes têm origem no psiquismo.
Ela se torna, assim, um lugar privilegiado para observar a interface entre corpo e emoção.
Quando odontologia e psicologia se encontram, o sintoma ganha outra profundidade. A compreensão da DTM extrapola a manifestação do problema mecânico e passa a ser compreendida como parte de uma narrativa psíquica e emocional, mesmo que disfarçada e incompreendida pelo paciente (na linguagem odontológica) ou pelo sujeito (na linguagem psicanalítica).
Escutar antes que o corpo precise gritar
A ATM é muito mais do que uma articulação corporal.É uma terceira cintura — física, emocional e simbólica.Um lugar onde o corpo manifesta, com precisão quase cirúrgica, aquilo que a mente ainda não conseguiu elaborar.
Talvez a pergunta que devamos fazer não seja apenas “onde dói?”, mas também e primordialmente: “o que essa dor está tentando dizer?”
Enteógenos, consciência e liberação das tensões
Estudos recentes sobre enteógenos têm mostrado como estados ampliados de consciência podem facilitar a elaboração de conteúdos emocionais reprimidos. Nessas experiências, muitos relatam relaxamento mandibular, desbloqueio muscular, sensação de “abrir espaço interno”. Não se trata de uma cura mágica, mas de um acesso: quando a psique se expande, o corpo responde. E a ATM, tão sensível às tensões, frequentemente acompanha esse movimento.
Tenho trabalhado intensamente, nos últimos tempos, na prospecção e exploração de caminhos alternativos que possam conciliar as minhas trajetórias profissional e pessoal. Aproximar conhecimentos odontológicos, antropológicos, psicoanalíticos se não se tornarem conclusivos, hipótese praticamente impossível de concretizar, poderá abrir espaço e propor um diálogo produtivo entre as ciências e consciência espiritual.
Nesse sentido venho desenvolvendo e formatando no livro que será publicado em breve – Na trilha do Ouvidor, diálogos possíveis entre psicanálise e xamanismo – uma conversa franca sobre o tema. Algumas reflexões têm sido desenvolvidas nesses artigos no LinkedIn onde, além de manifestar a minha formação psicanalítica venho tentando construir o diálogo que proponho relevante entre o conhecimento dito científico e a espiritualidade inerente a qualquer ser humano.
* Trecho integrante do livro: “Na trilha do Ouvidor – Diálogos possíveis entre Psicanálise e Xamanismo”, em processo de finalização.
Autor: José Airton Freitas do Calmo. Cirurgião Dentista e Psicanalista
Excertos são publicados em formato de artigo no LinkedIn.
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