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Entre o feiticeiro e o psicanalista: Lévi-Strauss, a eficácia simbólica e os caminhos do xamanismo

Foto do escritor: Airton Calmo
Airton Calmo
28 de ago.
10 min de leitura

Uma antiga inquietação que retorna


Recentemente, ao revisitar algumas lembranças dos tempos da graduação em Ciências Sociais, reencontrei uma inquietação intelectual que, de certo modo, nunca me abandonou. Naquele período, já me encontrava profundamente fascinado pela antropologia e, particularmente, pelas maneiras pelas quais diferentes sociedades constroem explicações para o sofrimento, a doença, a morte, o nascimento e aquilo que, para nós, frequentemente permanece situado na fronteira entre o universo psíquico, o corporal e o espiritual.

Foi nesse contexto que tomei contato com dois textos fundamentais de Claude Lévi-Strauss: “O feiticeiro e sua magia” e “A eficácia simbólica”, ambos publicados originalmente em 1949 e posteriormente reunidos em Antropologia Estrutural.

A distância de algumas décadas não diminuiu o interesse desses textos. Ao contrário. Relê-los hoje, depois de uma trajetória que passou pela odontologia, pela psicanálise e a psicologia analítica e, mais recentemente, pela aproximação com o universo do xamanismo, produz um efeito diferente daquele experimentado na juventude acadêmica.

O que antes parecia sobretudo uma contribuição clássica da antropologia estrutural passa a adquirir outra dimensão: uma reflexão sobre a força da palavra, do mito, da crença, do ritual e da posição daquele que ocupa o lugar de curador.

E é justamente nesse ponto que Lévi-Strauss estabelece uma interlocução surpreendentemente fértil com Freud e, por caminhos diferentes, com Jung.

Talvez por isso esses dois pequenos textos de 1949 possam ser lidos hoje não apenas como documentos fundamentais da história da antropologia, mas como uma espécie de dobradiça entre diferentes maneiras de compreender a experiência humana.


O feiticeiro e sua magia: quando a crença produz realidade


Em O feiticeiro e sua magia, Lévi-Strauss parte de uma questão aparentemente simples: por que uma prática mágica pode produzir efeitos reais sobre aquele que acredita nela?

O problema não é simplesmente saber se a magia existe ou não. Essa pergunta, formulada nos termos de uma oposição entre racionalidade e irracionalidade, pouco interessa ao antropólogo.

A questão mais profunda é outra: como uma determinada sociedade torna possível que a magia funcione?

Para responder, Lévi-Strauss recupera, entre outros exemplos, a história de Quesalid, personagem indígena que inicialmente não acreditava nos poderes dos feiticeiros e se aproxima deles justamente para desmascará-los.

O paradoxo é que, ao aprender as técnicas do ofício e assumir progressivamente a posição social de xamã, Quesalid acaba tornando-se um curador reconhecido.

(Esse direcionamento aparentemente paradoxal guia muita gente para pesquisa e a clínica. Foi assim comigo, tanto em relação à psicanálise quanto ao xamanismo).

O episódio permite a Lévi-Strauss formular uma das ideias mais importantes do texto: a eficácia da magia não depende exclusivamente da convicção individual do paciente.

Ela se sustenta em uma estrutura coletiva de crença.

O feiticeiro acredita na eficácia de suas técnicas; o paciente acredita no poder do feiticeiro; e a comunidade reconhece e sustenta aquela posição.

São três dimensões articuladas de um mesmo fenômeno.

A magia, portanto, não é simplesmente uma ilusão privada. Ela é um fenômeno socialmente estruturado.

E, esse mesmo fenômeno torna legitima a ação profissional de um médico, de um cientista, de um dentista ou psicólogo na atualidade.

Esse aspecto é fundamental porque desloca a discussão. Em vez de perguntar se o feiticeiro possui efetivamente poderes sobrenaturais, Lévi-Strauss pergunta o que acontece quando uma sociedade inteira reconhece alguém como portador desses poderes.

A posição social do curador passa a integrar o próprio processo terapêutico.

É aqui que o texto começa a adquirir uma inesperada atualidade para quem pensa a clínica.


O corpo não existe fora do universo simbólico


A consequência mais radical dessa argumentação talvez esteja na relação estabelecida entre corpo e significado.

O indivíduo não experimenta seu corpo exclusivamente como organismo biológico. Ele o experimenta também através das categorias simbólicas fornecidas pela cultura.

Isso ajuda a compreender por que determinados processos sociais podem produzir efeitos profundamente corporais.

O indivíduo reconhecido como vítima de um feitiço não sofre apenas porque “acredita” intelectualmente que está enfeitiçado. Ele passa a ocupar uma posição simbólica que reorganiza suas relações com o próprio corpo, com a comunidade e consigo mesmo.

Lévi-Strauss observa, nesse contexto, fenômenos de morte por enfeitiçamento nos quais o indivíduo, convencido de que está condenado, passa a ser progressivamente abandonado pela comunidade. A própria sociedade passa a tratá-lo como alguém que já está socialmente morto.

O interessante aqui é que a distinção entre realidade objetiva e realidade simbólica começa a perder sua simplicidade.

O símbolo não é apenas uma representação de alguma coisa que existe previamente.

Ele pode participar da produção da própria experiência.

Essa constatação aproxima a antropologia de questões que a psicanálise conhece há muito tempo: a palavra pode produzir efeitos no corpo; uma interpretação pode modificar uma experiência; uma representação pode organizar um sofrimento; um acontecimento psíquico pode apresentar consequências corporais.

Não significa que tudo seja imaginário.

Significa que o imaginário e o simbólico participam da maneira pela qual o corpo humano é vivido.


A eficácia simbólica: quando o mito encontra o corpo


É em A eficácia simbólica que Lévi-Strauss leva essa questão a um nível ainda mais elaborado.

O ponto de partida é um longo canto ritual utilizado por um xamã Cuna durante um parto difícil. O xamã constrói, através da palavra e da narrativa mítica, uma espécie de percurso pelo universo sobrenatural. Espíritos, forças, obstáculos e conflitos são organizados numa narrativa que acompanha simbolicamente aquilo que está acontecendo com a parturiente.

O que interessa a Lévi-Strauss não é afirmar que os espíritos descritos pelo xamã existem objetivamente.

O que interessa é compreender o que a narrativa faz.

A mulher encontra, por meio do mito, uma linguagem capaz de organizar uma experiência corporal que, até então, permanecia caótica, dolorosa e difícil de representar.

A eficácia do ritual estaria precisamente nessa capacidade de tornar pensável uma situação inicialmente vivida de maneira predominantemente afetiva e corporal.

O mito fornece uma estrutura.

A dor encontra uma narrativa.

O corpo encontra uma linguagem.

E, nesse movimento, aquilo que parecia sem forma passa a adquirir uma ordem.

É essa transformação que Lévi-Strauss chama de eficácia simbólica.


O encontro surpreendente com a psicanálise


É nesse momento que a leitura de Lévi-Strauss se torna especialmente interessante para o psicanalista.

O próprio autor estabelece explicitamente uma comparação entre a cura xamânica e a cura psicanalítica. Em ambas, existe uma experiência que precisa ser organizada e vivida; em ambas, conflitos que permaneciam fora do controle consciente podem encontrar uma forma de expressão e elaboração.

Mas Lévi-Strauss faz uma ressalva fundamental.

Xamanismo e psicanálise não são a mesma coisa.

A aproximação se dá pela estrutura do processo, não pela identidade entre os sistemas.

Na psicanálise, o paciente constrói progressivamente seu próprio mito individual a partir de sua história, suas lembranças, fantasias, conflitos e relações transferenciais.

No ritual xamânico analisado por Lévi-Strauss, o paciente recebe do exterior um mito socialmente compartilhado, que fornece uma linguagem para organizar sua experiência.

O paralelismo é, portanto, acompanhado por uma inversão.

Na formulação de Lévi-Strauss, o psicanalista escuta enquanto o xamã fala; o paciente constrói seu mito individual na análise, enquanto o xamã oferece um mito social no ritual.

Essa diferença é decisiva.

Ela impede que interpretemos o xamanismo simplesmente como uma forma rudimentar de psicanálise.

São sistemas diferentes, inseridos em cosmologias diferentes, sustentados por estruturas sociais diferentes.

Mas ambos nos ensinam alguma coisa sobre a relação entre palavra, representação, sofrimento e transformação.


Freud, Lévi-Strauss e a descoberta do inconsciente


A aproximação com Freud torna-se ainda mais interessante quando pensamos na importância atribuída à linguagem e à representação.

Freud descobriu, no campo clínico, que aquilo que não encontra representação consciente na estrutura psíquica do sujeito pode retornar através de sintomas, sonhos, atos falhos e manifestações corporais.

Lévi-Strauss, partindo da antropologia, desloca a questão para outro território: diferentes culturas fornecem diferentes sistemas simbólicos através dos quais os indivíduos podem organizar suas experiências.

Em ambos os casos existe uma dimensão que ultrapassa a consciência imediata.

Mas não devemos confundir os conceitos.

O inconsciente freudiano é dinâmico, fundamentalmente atravessado pelo conflito, pelo recalque, pelo desejo e pela história singular do sujeito.

O inconsciente que Lévi-Strauss começa a formular em sua antropologia estrutural possui outro estatuto. Ele está relacionado às estruturas formais que organizam a produção humana de significados. Neste ponto, está mais próximo do inconsciente coletivo de Jung do que de Freud.

Sua preocupação não é simplesmente descobrir conteúdos escondidos dentro do indivíduo, mas compreender as estruturas sociais que tornam possível a produção e a organização desses conteúdos.

Essa diferença é essencial.

Lévi-Strauss não transforma a antropologia em psicanálise. Ele utiliza algumas intuições provenientes da psicanálise para construir outra teoria da cultura.


E onde entra Jung?


A aproximação com Carl Gustav Jung é de outra natureza.

Enquanto Freud enfatiza a história singular do sujeito, o conflito psíquico e o recalque, Jung oferece instrumentos conceituais particularmente interessantes para pensar o mito, os símbolos e os arquétipos. O conceito de inconsciente coletivo é importantíssimo nesse paralelismo.

O ritual xamânico descrito por Lévi-Strauss é, nesse sentido, um campo extremamente fértil para uma leitura junguiana.

A narrativa ritual mobiliza figuras, imagens, forças sobrenaturais, animais, espíritos, passagens, obstáculos e transformações. Não se trata simplesmente de uma coleção arbitrária de imagens. Elas pertencem a uma cosmologia compartilhada e possuem uma função organizadora.

Entretanto, aqui também precisamos manter uma distância crítica.

Seria precipitado afirmar que os espíritos xamânicos são simplesmente “arquétipos junguianos”.

Essa equivalência apagaria as diferenças entre os sistemas teóricos.

Jung procura compreender a recorrência e a profundidade psicológica das imagens simbólicas; Lévi-Strauss procura descobrir as relações estruturais que organizam os sistemas simbólicos.

Um privilegia a dimensão arquetípica e psíquica; o outro, a estrutura e a lógica das relações.

Mas os dois oferecem uma provocação semelhante: o mito não é apenas uma narrativa sobre o mundo. Ele é uma maneira de organizar a experiência humana no mundo.


Da crença à estrutura


Talvez seja justamente aqui que uma leitura contemporânea de Lévi-Strauss possa evitar uma interpretação superficial de sua obra.

Falar em “crença” não significa simplesmente dizer que alguém acredita em algo que não existe.

A crença está inserida numa estrutura.

O feiticeiro não atua sozinho. O paciente não acredita sozinho. A comunidade não observa de fora.

Todos participam de um sistema simbólico que confere sentido às ações de cada um.

Por isso, a eficácia simbólica não deve ser confundida e reduzida ao conceito conhecido, na clínica e na pesquisa, como “efeito placebo”.

O placebo pode ser pensado, em determinados contextos, como uma resposta psicofisiológica associada às expectativas do paciente. A proposta de Lévi-Strauss é mais abrangente: ele está interessado na estrutura simbólica que torna determinada experiência possível e inteligível.

A cura acontece dentro de uma linguagem.

E essa linguagem é inseparável da cultura.


Uma crítica necessária a Lévi-Strauss


É precisamente aqui que uma resenha crítica precisa ir além da admiração.

A teoria da eficácia simbólica é extraordinariamente fecunda, mas não está isenta de problemas.

Ao enfatizar a estrutura, Lévi-Strauss corre o risco de deixar em segundo plano aquilo que posteriormente seria valorizado por outras correntes da antropologia: a experiência concreta do sujeito, a agência, a dimensão performática do ritual, os afetos e as relações de poder envolvidas na situação terapêutica.

Críticas posteriores apontaram justamente essa limitação: a análise estrutural tende a privilegiar a organização simbólica e a analogia entre sistemas, deixando menos exploradas as dimensões da experiência, da criatividade e da ação, presentes nos processos de cura.

Isso não diminui a importância dos textos.

Talvez, ao contrário, indique por que eles continuam tão produtivos.

Um grande texto não precisa encerrar uma questão.

Pode ser aquele que nos obriga a formular novas perguntas.


O que Lévi-Strauss pode dizer ao xamanismo contemporâneo?


Essa talvez seja a pergunta que me interessa mais hoje.

A releitura desses dois textos não nasce apenas de uma curiosidade retrospectiva pela antropologia que estudei na graduação.

Ela nasce também de uma investigação que venho desenvolvendo sobre o xamanismo e que, progressivamente, encontra um lugar no projeto do livro “Na trilha do ouvidor – diálogos possíveis entre psicanálise e xamanismo”, onde pretendo levantar essas e outras questões.

O que Lévi-Strauss oferece para essa investigação não é uma confirmação científica do universo espiritual do xamanismo.

E isso é importante deixar claro.

Sua contribuição é outra.

Ele nos permite compreender que uma experiência ritual não precisa ser reduzida à pergunta “isso é objetivamente verdadeiro ou falso?” para ser investigada seriamente.

Existem algumas outras perguntas, talvez mais antropologicamente interessante:

O que essa experiência produz naquele que a vive e no grupo que compartilha seus significados?

O que acontece quando uma determinada cosmologia oferece ao sujeito uma linguagem para nomear aquilo que antes era inominável?

O que acontece quando uma experiência corporal encontra uma narrativa capaz de organizá-la?

O que acontece quando uma comunidade reconhece determinado indivíduo como alguém autorizado a conduzir essa experiência?

E, finalmente, o que acontece quando o sujeito passa a habitar uma narrativa que modifica sua relação consigo mesmo?

Essas questões aproximam novamente antropologia, psicanálise e xamanismo.


O xamã como aquele que oferece uma linguagem


Talvez uma das imagens mais poderosas que permaneçam desses dois textos seja a do xamã como alguém que oferece uma possibilidade de manifestação para aquilo que ainda não encontrou linguagem.

Isso não significa que o xamã invente arbitrariamente a realidade do paciente.

Ele trabalha dentro de uma tradição.

Seu repertório simbólico pertence a uma cosmologia coletiva.

Mas, ao mesmo tempo, cada ritual é uma atualização dessa tradição diante de uma situação concreta.

O mito precisa encontrar aquela pessoa, naquele corpo, naquele momento.

É aí que tradição e experiência se encontram.

E talvez seja precisamente esse encontro que permita compreender a força terapêutica do símbolo.


Uma trilha que continua aberta


Reler Lévi-Strauss hoje, portanto, não significa retornar nostalgicamente ao estruturalismo.

Significa reencontrar uma pergunta que permanece aberta: por que os símbolos têm tanto poder sobre nós?

A resposta talvez não esteja exclusivamente na biologia, nem exclusivamente na psicologia, nem exclusivamente na cultura.

O ser humano é simultaneamente corpo, linguagem, história, relação e símbolo.

A doença pode ser orgânica e, ainda assim, ser vivida simbolicamente.

O sofrimento pode ser psíquico e manifestar-se no corpo.

O ritual pode ser cultural e produzir efeitos subjetivos, individuais e coletivos.

A palavra pode ser aparentemente abstrata e, no entanto, modificar uma experiência corporal.

É nesse território intermediário que a eficácia simbólica adquire sua potência.

E é também nesse território que o diálogo entre psicanálise e xamanismo pode, e precisa, ser levado a sério — não como tentativa de provar uma religião pela ciência, nem de transformar o xamanismo em uma versão exótica da psicanálise, mas como investigação sobre as diferentes maneiras pelas quais o ser humano produz sentido, enfrenta o sofrimento e busca transformar sua experiência.

Talvez seja essa a trilha que se abre novamente diante de mim.

Uma trilha que passa pela antropologia de Lévi-Strauss, encontra Freud, cruza com Jung, chega ao xamanismo e retorna à pergunta fundamental da clínica: o que acontece quando aquilo que não podia ser pensado encontra, finalmente, uma forma de ser dito?

É nesse sentido que O feiticeiro e sua magia e A eficácia simbólica, escritos há mais de sete décadas, continuam surpreendentemente contemporâneos.

E talvez seja justamente por isso que ainda valha a pena voltar a eles.

Não para encontrar respostas definitivas.

Mas para aprender, novamente, a fazer perguntas.


 
 
 

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Psicanálise para pensar a vida além das respostas prontas.
Autor de Chimarreando com Freud.
Reflexões sobre inconsciente, sonhos, cultura e cotidiano.

© 2026 Airton Calmo — Psicanalista, autor e pesquisador.

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