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Na trilha do ouvidor: entre a escuta, o inconsciente e o sagrado

Foto do escritor: Airton Calmo
Airton Calmo
22 de ago.
6 min de leitura

Atualizado: 30 de ago.


De onde vem a ideia de um Psicanalista Ayahuasqueiro?


Há momentos na vida em que percebemos que o caminho que percorremos durante anos já não nos conduz ao lugar que desejaríamos alcançar.

Às vezes, a mudança começa por uma pergunta. Outras vezes, por uma inquietação que não sabemos nomear.

E há ocasiões em que é o próprio caminho que se fecha diante de nós, obrigando-nos a procurar outra passagem.

Talvez seja essa a melhor metáfora para compreender o momento que vivo.

Durante mais de quatro décadas, minha trajetória profissional esteve ligada à Odontologia. Ali aprendi o valor da técnica, da precisão, da observação e da intervenção.

Mas também fui percebendo, progressivamente, que nem toda dor se deixa compreender pela anatomia, nem todo sintoma desaparece quando corrigimos aquilo que parece estar objetivamente errado.

O corpo fala.

E, muitas vezes, fala através daquilo que não consegue dizer.

Foi desse lugar que minha aproximação com a Psicanálise ganhou consistência.

A escuta passou a ocupar o lugar que antes pertencia predominantemente à intervenção. A palavra tornou-se instrumento de investigação. O sintoma deixou de ser apenas algo a ser eliminado e passou a ser também, e principalmente, algo a ser escutado.

Essa passagem não aconteceu de uma vez, de supetão.

Minha formação e meus interesses foram atravessando diferentes territórios: Odontologia, Ciências Sociais, Antropologia, Psicanálise Freudiana, Psicologia Analítica e, mais recentemente – há cerca de um ano, o contato com práticas xamânicas e com aquilo que, no Brasil contemporâneo, costuma ser chamado de medicinas da floresta.

Vejo essa trajetória como uma trilha, mas também como uma sucessão de abandonos e reintegração de conteúdos, práticas e conhecimentos.

Cada etapa acrescentou uma pergunta à anterior. E talvez seja justamente a escuta dessas perguntas que esteja me conduzindo agora a uma região ainda pouco conhecida por mim.


Entre ciência e espiritualidade


Durante muito tempo, fomos ensinados a imaginar ciência e espiritualidade como territórios incompatíveis.

De um lado, a razão, a evidência, o método e a objetividade. De outro, a experiência subjetiva, o símbolo, o rito, o mistério e o sagrado.

Minha experiência tem me levado a desconfiar dessa oposição simplista.

Isso não significa abandonar o rigor científico em favor de crenças, nem transformar experiências espirituais em verdades científicas antes que possam ser investigadas.

Significa reconhecer que o ser humano é maior do que qualquer uma das linguagens utilizadas para compreendê-lo.

A Psicanálise me ensinou a escutar aquilo que não se apresenta imediatamente à consciência. A Psicologia Analítica ampliou meu interesse pelo símbolo, pelo mito e pelas dimensões profundas da experiência psíquica.

A Antropologia me ensinou a olhar para os modos diversos pelos quais diferentes culturas constroem suas relações com o corpo, a doença, a cura, o sagrado e a comunidade.

E as experiências que venho vivendo no universo das práticas xamânicas me colocaram diante de uma dimensão que eu antes observava principalmente como objeto de estudo: a experiência espiritual.

Não se trata, portanto, de escolher entre ciência e espiritualidade.

Trata-se de investigar se é possível estabelecer um diálogo responsável entre esses campos sem que um precise destruir ou colonizar o outro.


A experiência com a Ayahuasca


Desde setembro de 2025 venho participando de cerimônias conduzidas no contexto de práticas xamânicas e de uso ritual da Ayahuasca.

Não apresento essa experiência como receita, promessa ou caminho universal.

Ela pertence, antes de tudo, à minha própria trajetória.

O que posso afirmar é que essas experiências produziram em mim perguntas que não existiam anteriormente — e algumas delas passaram a dialogar profundamente com aquilo que já venho estudando há bastante tempo na Psicanálise.

Em uma dessas experiências, por exemplo, uma cerimônia planejada precisou ser modificada pelas circunstâncias. A chuva havia tornado o caminho habitual praticamente intransitável. O trajeto que eu conhecia precisou ser abandonado e uma nova rota foi encontrada.

O curioso é que o GPS vinha indicando esse novo caminho desde o início. Ainda assim eu insistia em seguir pelo caminho conhecido.

Aquela situação banal ganhou, para mim, uma dimensão simbólica inesperada. Quantas vezes fazemos isso na vida?

Repetimos o mesmo caminho, esperamos resultados diferentes e atribuímos ao mundo a responsabilidade pelo fato de nada mudar.

Naquela noite, a cerimônia que eu esperava também não aconteceu exatamente como havia sido planejada. E, paradoxalmente, foi justamente nessa interrupção que algo se produziu.

Isso me fez pensar novamente naquilo que a Psicanálise conhece tão bem: nem sempre aquilo que planejamos é o que efetivamente nos transforma. Às vezes, é a ruptura do roteiro que abre espaço para a escuta.


O Psicanalista Ayahuasqueiro


Foi durante uma dessas experiências que surgiu, na fala precisa da condutora da cerimonia, uma expressão que inicialmente me causou estranhamento: Psicanalista Ayahuasqueiro.

A expressão ficou comigo. Não porque eu tenha encontrado uma definição pronta para ela, mas justamente porque não encontrei.

O que significa ser um Psicanalista Ayahuasqueiro?

Ainda não sei completamente. Talvez seja exatamente essa ausência de resposta definitiva que torne a expressão interessante.

Não a compreendo como uma nova especialidade clínica, nem como autorização para misturar indiscriminadamente práticas diferentes. Muito menos como uma tentativa de substituir a Psicanálise por uma experiência espiritual.

Vejo-a, neste momento, como uma identidade em construção. Um lugar de investigação.

Uma tentativa de compreender o que acontece quando alguém formado pela tradição ocidental da escuta psicanalítica se permite também entrar em contato, com respeito e responsabilidade, com conhecimentos ancestrais e experiências de natureza espiritual.

A palavra central continua sendo escuta.

Escuta do sujeito.

Escuta do inconsciente.

Escuta do corpo.

Escuta dos símbolos e dos mitos da humanidade.

Escuta do silêncio.

Escuta também daquilo que uma tradição milenar pode nos dizer quando não a tratamos nem como superstição nem como manifestação absoluta da verdade.


Uma possível integração


Não pretendo construir uma teoria definitiva. Ainda menos proclamar que encontrei uma síntese entre Psicanálise e Xamanismo.

Estou no caminho, na busca de um dialogo possível.

E talvez o caminho seja justamente o lugar onde uma investigação dessa natureza precisa permanecer por algum tempo.

A Psicanálise oferece uma tradição rigorosa de escuta e investigação do sujeito.

O Xamanismo oferece tradições ancestrais de relação com a natureza, com o coletivo, com o símbolo e com o sagrado.

A ciência oferece instrumentos para investigar fenômenos que durante muito tempo foram relegados ao território da crença.

A espiritualidade oferece experiências que, para muitas pessoas, ultrapassam os limites daquilo que pode ser imediatamente mensurado.

Entre esses territórios existe uma zona de encontro.

E, é nessa zona, ainda pouco conhecida, que estou procurando caminhar.

Sem abandonar Freud. Sem transformar Jung em dogma. Ambos reconheceram a potência dos mitos como forma de representação do inconsciente. Divergiram um pouco na forma de compreensão e nas suas manifestações.

Sem idealizar as tradições ancestrais. Sem negar a ciência. E sem negar aquilo que a experiência subjetiva insiste em apresentar.

No causo que conto como epilogo no meu livro “ Chimarreando com Freud”, construí o relato de um “encontro quântico” com Freud.

Nessa supervisão póstuma fictícia intuí pretensiosamente a sugestão de reconciliação entre a teoria freudiana e junguiana. Mais pretensioso ainda me sinto na busca dessa reconciliação através das práticas xamânicas.


Na trilha do ouvidor


Talvez seja por isso que o projeto que começa a tomar forma tenha recebido, provisoriamente, o título: Na trilha do ouvidor — um diálogo possível entre Psicanálise e Xamanismo.

O “ouvidor” não é aquele que possui todas as respostas.

É aquele que, simplesmente, se dispõe a escutar. E talvez essa seja a única posição que pareça verdadeiramente coerente com a Psicanálise.

Escutar antes de concluir. Perguntar antes de explicar. Caminhar antes de afirmar que chegamos.

Minha trajetória até aqui não foi linear.

Da Odontologia à Psicanálise. Da técnica à escuta. Do consultório ao horizonte. Do divã ao Rancho do Ouvidor. Do inconsciente ao símbolo.

E, agora, do racionalmente conhecido em direção a uma experiência espiritual que ainda procuro compreender.

Não sei onde essa trilha vai terminar. E, talvez não precise saber.

Por enquanto, basta continuar caminhando — atento às bifurcações, aos caminhos interditados e às vozes que aparecem quando finalmente aprendemos a ouvir.

Este livro é uma tentativa de registrar essa caminhada.

Não como conclusão.

Mas como testemunho de uma pergunta que permanece aberta:

É possível construir um diálogo entre Psicanálise e Xamanismo sem reduzir um ao outro?

É essa pergunta que pretendo seguir escutando. E talvez seja justamente na trilha que encontraremos algumas respostas.


Este texto inaugura uma nova etapa de uma investigação que está dando origem ao livro Na trilha do ouvidor — um diálogo possível entre Psicanálise e Xamanismo.

 
 
 

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airtoncalmo

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Psicanálise para pensar a vida além das respostas prontas.
Autor de Chimarreando com Freud.
Reflexões sobre inconsciente, sonhos, cultura e cotidiano.

© 2026 Airton Calmo — Psicanalista, autor e pesquisador.

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