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Nina: entre a falta e a permanência. Um pequeno ensaio sobre o luto, a morte e aquilo que permanece

Foto do escritor: Airton Calmo
Airton Calmo
20 de set.
8 min de leitura
Nina: a gata mais freudiana que conheci.
Nina: a gata mais freudiana que conheci.

Nina: entre a falta e a permanência

Um pequeno ensaio sobre o luto, a morte e aquilo que permanece


A Nina partiu no dia 31 de agosto.

Gosto de pensar que virou uma estrelinha brilhante no céu do Ouvidor.

É uma maneira simples de dizer algo que talvez não consiga ser dito de outra forma.

Não sei se existe um lugar para onde vão os gatos quando morrem. Não sei sequer se existe um “depois”. Mas sei que algumas presenças não desaparecem simplesmente quando o corpo deixa de existir.

A Nina era uma lady.

Uma senhorinha de quase dezoito anos, já idosa para os padrões de vida de um gato. Viveu praticamente toda a sua existência com minha esposa e cerca de nove anos e meio comigo.

Quando entrei na vida das duas, acho que ela foi a primeira a se apaixonar por mim.

E eu por ela.

Nunca fui exatamente um homem de gatos.

Mas há encontros que não obedecem às nossas preferências. A Nina entrou no meu coração sem pedir licença e, uma vez lá dentro, nunca mais saiu.

Talvez seja justamente isso que torne o luto tão estranho.

O corpo desaparece. A presença cotidiana desaparece. Mas alguma coisa permanece.

E é diante dessa contradição que começo a compreender que o luto não é simplesmente a tristeza provocada pela morte. Ele é também a experiência de descobrir o que uma presença passou a significar em nós depois que ela já não está fisicamente presente.

Durante os últimos tempos de sua vida, acompanhei o sofrimento das duas: da gata e de minha esposa. Entre o diagnóstico dos tumores e a morte houve um período em que a vida parecia estar vinculada a uma espécie de contagem regressiva.

Sabíamos que o tempo estava terminando.

Mesmo assim, ninguém sabe exatamente como se preparar para uma ausência.

Talvez porque a morte não seja apenas o fim daquele que morre.

Ela modifica também aqueles que ficam.


Freud e o trabalho da perda


Foi Freud quem primeiro me ofereceu uma linguagem para pensar e tentar elaborar aquilo que eu estava vivendo.

No início da minha formação psicanalítica, conheci o ensaio seminal, Luto e Melancolia. O texto, publicado em 1917, permanece uma referência fundamental para pensar a experiência da perda. Freud aproxima luto e melancolia, mas também estabelece entre eles uma diferença importante: no luto, a realidade da perda é reconhecida e o sujeito se encontra diante do trabalho psíquico de desligamento dos investimentos dirigidos ao objeto perdido.

Essa formulação é poderosa porque permite compreender que o luto é um trabalho a ser executado. Não no sentido de uma tarefa que possa ser cumprida segundo um calendário. Trabalho porque alguma coisa dentro de nós precisa se reorganizar diante de uma realidade que não pode ser desfeita.

Durante algum tempo, continuamos esperando encontrar aquilo que perdemos nos lugares onde costumávamos encontrá-lo.

Uma cadeira. Um canto da casa. Um movimento. Um ruído. Um olhar perdido no teto.

No caso da Nina, talvez seja o silêncio que mais denuncie sua ausência.

Um gato ocupa pouco espaço físico, mas pode ocupar um espaço psíquico enorme.

Freud ajuda a compreender esse paradoxo: aquilo que foi investido de afeto não desaparece simplesmente porque o objeto já não está presente.

E talvez seja por isso que o luto doa tanto. Não choramos apenas por quem morreu.

Choramos também a vida que tínhamos com quem morreu.


Lacan e o buraco que permanece


Lacan desloca a questão.

Em seu Seminário 6, ao comentar Hamlet, ele formula a perda como aquilo que produz um “buraco no Real”. Aquilo que vaza sobre a realidade e necessita de sutura para estancar.

A morte de alguém importante não produz apenas a ausência de um corpo; ela desorganiza a rede simbólica que sustentava aquela presença. O trabalho do luto envolve, então, também uma mobilização da linguagem, das imagens e dos ritos para lidar com aquilo que não pode ser simplesmente preenchido.

Talvez seja por isso, e para isso, que se produz este ensaio. Isso já aconteceu tantas vezes antes. Mas, neste momento, apenas sinto a presença de Nina como se estivesse ainda espichada entre o teclado e a tela. Pura inspiração felina.

Talvez este próprio texto seja uma pequena tentativa de bordear o buraco deixado por ela. Elaborar a sutura simbólica, num rococó barroco, na tentativa de sublimar a falta que a ausência dela nos traz.

Recordar seu nome. Recontar sua história. Lembrar que ela esteve aqui.

Dizer que foi amada. Dizer que faz falta.

Os rituais humanos diante da morte cumprem, entre outras coisas, essa função de dar forma simbólica àquilo que a morte tornou impossível de recuperar. Lacan insiste na importância dos ritos e da linguagem diante desse vazio.

Nina não teve um funeral no sentido tradicional, talvez esteja tendo agora alguma coisa diferente. Concordamos, eu e minha esposa, em deixar suas cinzas flutuarem nas ondas pela corrente do Ouvidor, marcando simbolicamente um local de reencontro de tempos em tempos.

Lá ela será sempre lembrada. E lembrar também é uma forma de rito.

Sentar na praia e olhar para o mar sempre foi para nós, um momento de paz.

Acredito que a Nina está agora fazendo parte dessa paz.


O que perdemos quando alguém morre?


Há ainda outra dimensão da formulação lacaniana que me toca particularmente.

No Seminário 10, Lacan reformula a questão do luto a partir da relação do sujeito com o desejo do outro. A frase é conhecida: choramos aquele de quem podemos dizer “eu era sua falta”.

É uma formulação difícil.

Mas talvez possamos aproximá-la, sem pretender reduzi-la, de uma experiência muito simples.

Quando alguém morre, não perdemos somente aquele que amávamos. Perdemos também o lugar que ocupávamos na vida daquele que morreu.

Com a Nina, isso parece particularmente curioso.

Ela nos esperava.

Reconhecia todos os sons e movimentos do ambiente, tanto no apartamento da cidade quanto na casa da praia.

Ocupava determinados lugares da casa.

Tinha seus horários. Seus hábitos. Seus modos de pedir. Sua maneira de estar perto.

Eu também existia de uma determinada maneira para ela.

Quando ela morreu, não desapareceu somente uma gata.

Desapareceu uma relação cotidiana na qual eu também era alguém.

Talvez o luto seja, em parte, o trabalho de descobrir quem somos agora que aquela relação deixou de existir daquela maneira física e convencional.


Jung e a imagem da transformação


Foi justamente no final da vida da Nina que minha busca começou a se deslocar.

Depois de anos lendo Freud e tentando decifrar Lacan, comecei a me aproximar mais intensamente de Jung.

Não porque Freud e Lacan tivessem deixado de me interessar. Pelo contrário, instigam cada vez mais minha vontade de continuar trabalhando com psicanálise. Mas porque algumas perguntas já não cabiam inteiramente no mesmo campo.

A morte é uma delas.

A Psicologia Analítica permite aproximar a experiência da morte das imagens simbólicas de transformação, passagem, morte e renascimento. A tradição junguiana trabalha com a ideia de que imagens míticas podem oferecer formas simbólicas para experiências humanas que não se deixam reduzir à explicação racional imediata. Estudos contemporâneos da Psicologia Analítica continuam explorando precisamente essa relação entre morte, luto, mito e transformação.

Isso não significa dizer que a morte seja “boa”, necessária ou desejável. Nem que toda perda produza automaticamente crescimento.

Seria uma violência transformar a dor de alguém em uma espécie de lição obrigatória.

Mas talvez o símbolo, na concepção junguiana, permita outra coisa. Talvez nos autorize a permanecer diante do mistério sem precisar resolvê-lo.

A morte pode ser biologicamente definitiva e, ao mesmo tempo, continuar produzindo imagens, sonhos, lembranças e transformações naqueles que ficam.

Nina pode ter deixado de ser um corpo presente. Mas tornou-se uma imagem. Uma lembrança. Uma história. Uma presença ausente.

E, talvez seja isso que o símbolo faça: não elimina a perda, mas cria uma forma de habitá-la.


E então aparece o Ouvidor


Há uma coincidência que não consigo ignorar.

Nina morreu e, de algum modo, voltou para o Ouvidor.

Não fisicamente, evidentemente. Mas o Ouvidor tornou-se parte importante da história que estou construindo.

É lugar de escuta. É lugar de silêncio.

É lugar de vento, mar, mata, pedra, animais, pescadores, céu aberto.

É também o nome que escolhi para uma trilha de investigação que procura aproximar Psicanálise, Psicologia Analítica, Antropologia e Xamanismo.

Talvez por isso a morte da Nina tenha encontrado lugar justamente nesse percurso.


O xamanismo e a morte como passagem


As tradições chamadas genericamente de xamânicas não constituem uma única doutrina sobre a morte. Há enorme diversidade entre povos, cosmologias e práticas.

Mas a antropologia permite reconhecer, em diferentes contextos, concepções nas quais a morte não representa simplesmente o desaparecimento de um indivíduo, mas uma transformação de relações entre vivos, mortos, ancestrais, território e comunidade.

Os estudos sobre ritos de passagem de Arnold van Gennep e Victor Turner ajudam a pensar justamente essa dimensão liminar: há momentos em que o sujeito ou a comunidade atravessam um intervalo entre uma condição anterior e outra que ainda não se consolidou.

O luto pode ser pensado também como um desses lugares de passagem. Ainda somos quem éramos, mas já não somos exatamente os mesmos.

Algumas cosmologias ameríndias, por sua vez, colocam em questão a separação radical entre natureza e cultura, vivos e mortos, humanos e não humanos. É nesse terreno que autores como Ailton Krenak e Eduardo Viveiros de Castro podem abrir perguntas importantes — desde que não sejam utilizados para produzir uma suposta “teoria indígena da morte” única e homogênea.

Talvez o que me interesse nessas perspectivas seja menos uma resposta sobre para onde Nina foi e mais uma pergunta sobre como continuamos relacionados àquilo que morreu.

A morte pode interromper uma existência. Mas não necessariamente interrompe uma relação.


Uma gata pode continuar viva?


Não sei. Essa talvez seja a pergunta que eu não consiga — e talvez nem queira — responder.

Não sei se existe uma vida eterna. Não sei se existe uma alma dos animais.

Não sei se Nina está em algum lugar, em alguma dimensão que desconhecemos, ou se a ideia de “algum lugar” já é uma tentativa humana de tornar suportável aquilo que não conseguimos compreender.

Mas existe algo que sei.

Durante quase dezoito anos, ela viveu. Foi amada e amou, à sua maneira.

Criou vínculos. Ocupou espaços. Participou da nossa vida.

Acompanhou silenciosamente uma parte importante da minha transformação pessoal e profissional.

Esteve comigo enquanto eu lia Freud.

Esteve comigo enquanto eu tentava compreender Lacan.

Esteve comigo quando comecei a me aproximar de Jung.

E esteve, sem saber, no início das perguntas que me levaram ao xamanismo e à ancestralidade.

Talvez seja demais dizer que ela me ensinou alguma coisa. Mas, certamente, ela participou daquilo que me tornei.

E isso já é uma forma de permanência.


A pequena eternidade dos que foram amados


Talvez a vida eterna não precise significar necessariamente uma existência que continua indefinidamente em algum outro lugar.

Talvez exista uma eternidade menor. Mais humana. Mais doméstica.

A eternidade de uma fotografia. De um nome que continua sendo pronunciado.

De um lugar vazio no sofá. De uma lembrança que aparece sem ser chamada.

De alguém que conta uma história sobre quem morreu.

De uma saudade. De um texto.

Nina agora existe também nessas coisas.

Existe na memória da minha esposa. Existe na minha. Existe nas marcas que deixou pela casa. Existe nas fotografias.

Existe na falta.

E talvez exista também nesta página, neste ensaio que nasceu da necessidade de falar sobre uma gata e acabou me conduzindo novamente às perguntas que acompanham minha própria trilha:

O que é morrer?

O que permanece quando o corpo desaparece?

Onde termina uma vida e começa uma memória?

E será que aquilo que chamamos de morte é realmente o fim de uma relação?

Não sei. E, por enquanto, prefiro não saber.

Talvez o luto também seja isso: aprender a viver diante de uma pergunta para a qual não temos resposta.

E, de vez em quando, olhar para o céu do Ouvidor e imaginar uma pequena estrela brilhando.

Chama-se Nina.

 
 
 

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airtoncalmo

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Psicanálise para pensar a vida além das respostas prontas.
Autor de Chimarreando com Freud.
Reflexões sobre inconsciente, sonhos, cultura e cotidiano.

© 2026 Airton Calmo — Psicanalista, autor e pesquisador.

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