O causo do Alfredo, o Compadre e a Água na Fervura

Esse causo foi inspirado pelo cumpadi Flávio. E aqui não tem disfarce, não. O nome é verdadeiro — como verdadeiro é o apreço que tenho pela família S.
E mantenho assim, sem pseudônimo nem rodeio, mais por reverência do que por descuido. Porque tem gente que a gente não reduz a personagem.
O Professor é desses. Acadêmico de carteirinha, forjado lá pras bandas de Pelotas, daqueles que parecem já ter nascido com nota de rodapé. Autor de livro, de artigo, de parecer — mas, mais que isso, um sujeito requintado e com uma escuta fina, dessas que não se aprende só em universidade.
Pôs entonces…
Estava eu voltando do rancho, depois de brincar de surfista nas marolas mansas do Ouvidor, jogando a bike contra a espuma da onda — mais espalhando água do que pedalando — quando o celular vibra no bolso. Áudio do cumpadi.
Parei ali mesmo na areia e sentei na bike como quem se ajeita pra ouvir coisa séria. E era.
O compadre dizia que tinha lido o livro. Que tinha gostado. Que os causos tinham lhe pegado de jeito. Até aí, só alegria.
Mas então veio o porém — que é sempre onde mora o essencial. Ele disse, com aquele jeito respeitoso de quem vai entrar num terreno delicado, que tinha ficado com pena do Alfredo. Do velho Alfredo do causo cinco, do livro.
Pra quem não lembra — ou pra quem não teve o prazer — Alfredo foi um dos primeiros falantes a atravessar o portão simbólico do Rancho do Ouvidor. Chegou lá meio curioso, meio desconfiado do dentista que virou analista, carregando na boca um “teclado” novo — como ele mesmo dizia — depois de trocar as próteses totais por aqueles protocolos modernos, tudo fixo, parafusado no osso, firme que nem convicção antiga.
Mas o que não estava firme era o resto. Porque enquanto os dentes estavam rijos, aptos pro churrasco mais cascudo, algo nele parecia solto.
Alfredo tinha o sorriso renovado, é verdade. Estava faceiro, como guri de bombacha nova em dia de festa. Mostrava os dentes com um certo orgulho técnico — coisa de quem venceu uma etapa. Mas, no fundo dos olhos, tinha outra coisa. Um certo embaciado. Uma espécie de silêncio que não combinava com o brilho do novo sorriso.
Lembrei aí do que o compadre falou:
— Acho que tu jogou água fria na fervura do homem.
Aquilo ficou.
Na hora, confesso, até concordei. Pareceu mesmo que eu tinha dado uma puxada de freio no entusiasmo do sujeito. Um certo esculacho clínico, talvez. Alfredo ali, todo contente com sua reconstrução oral, e eu apontando uma falta — como quem diz: “tá bom, mas…”
E esse “mas” pesa. Principalmente quando vem de quem está na posição de escutar.
Segui pedalando depois do áudio, mas já não era mais o mesmo trajeto. A cabeça tinha desviado.
Fiquei pensando no Alfredo. Naquele olhar antigo que não acompanhava a boca nem o sorriso novo.
E aí a coisa começou a virar. Porque talvez — e só talvez — eu não tivesse jogado água fria em fervura nenhuma. Talvez eu só tivesse escutado o ponto onde a fervura não alcançava.
Porque há entusiasmos que são, no fundo, uma tentativa de aquecer aquilo que insiste em permanecer frio.
O Alfredo não estava feliz só pelos dentes. Estava tentando se convencer de uma alegria maior. Uma alegria que, infelizmente, não vinha da alma.
O tal “ninho vazio” — que ele mencionou quase de passagem, como quem fala do tempo — não aparecia no sorriso novo, nem estava nos dentes. Estava na casa. Na vida. Naquilo que se esvazia quando os filhos saem, quando os lugares mudam, quando a rotina perde seus ocupantes.
E isso não se fixa com parafuso. Não se resolve no protocolo. Não se mastiga melhor com o tempo.
Aquilo fica ali — entre uma palavra e outra — esperando escuta.
Talvez o que o compadre tenha sentido como água fria fosse, na verdade, o reconhecimento de que havia algo ali que não podia ser aquecido com entusiasmo nem pela arcada reluzente.
E isso incomoda. Porque a gente prefere a festa. Prefere o sorriso pronto. Prefere o caso resolvido.
Mas o analista — o Ouvidor do rancho — não trabalha com festa. Trabalha com resto, com aquilo que sobra quando o brilho passa.
E o Alfredo, no fim das contas, não precisava que eu celebrasse seus dentes. Ele precisava ser ouvido por alguém que não se deixasse enganar por eles. Que pudesse escutar a angustia da perda.
Quando terminei o trajeto, já chegando em casa, pensei em responder ao compadre. Agradecer o cuidado. Explicar melhor. Mas acabei não respondendo na hora. Porque certos diálogos não se resolvem em áudio. Eles continuam.
Como esse aqui. E, no fundo, talvez o compadre tenha razão em parte. Sempre tem.
Porque entre a água fria e a fervura, existe um ponto difícil de sustentar: aquele onde a gente não apaga o entusiasmo, mas também não encobre a melancolia. E esse ponto…não se ensina.
Se escuta.




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