O que é a Economia Sagrada e por que adoto esse modelo em sessões de análise?
Atualizado: 30 de ago.

Quando encontramos a palavra “sagrado”, muitas vezes pensamos em religião.
E, de fato, o termo sagrado refere-se a tudo que é digno de veneração, respeito profundo ou que possui caráter divino. Trata-se daquilo que é consagrado a Deus ou aos ritos de uma religião. Entretanto, o sagrado também diz respeito a resgatar o valor das relações humanas, da confiança e da interdependência.
Dia desses, ao informar que estou oferecendo escuta psicanalítica sob o formato de contribuição espontânea — guiado pelo conceito de Economia Sagrada de Charles Eisenstein —, alguém me perguntou: “Mas isso funciona no mundo real?”
Para responder, preciso dar um salto no tempo e na antropologia.
Em 1925, um antropólogo francês chamado Marcel Mauss escreveu sua obra maior intitulada “Ensaio sobre a Dádiva”. Esse autor percebeu, estudando a vida entre os índios Maori, que, muito antes da invenção do cartão de crédito e código de barras, as sociedades se organizavam sob uma regra invisível, mas sagrada: dar, receber e retribuir.
Entre os povos nativos da Nova Zelândia, havia a crença no Hau — a alma das coisas que nos são dadas. Se você recebe algo, o Hau pede que aquilo continue circulando. Reter, acumular ou negar a retribuição quebrava o fluxo e adoecia a comunidade. O comércio moderno nos fez esquecer o Hau. Transformamos tudo numa fria transação comercial. Você me paga X, eu te entrego Y, tchau e bênção. Não há vínculo.
O conceito de Hau foi ressignificado pelo filósofo e escritor norte-americano Charles Eisenstein, sob o termo Economia Sagrada, e, propõe uma transição da lógica da escassez, onde tudo é precificado, competido e acumulado, para a lógica da dádiva; quando reconhecemos que tudo o que recebemos é um presente da vida e que o cuidado deve circular.
Quando Eisenstein propõe a Economia Sagrada, e quando eu trago esse conceito para o setting analítico, o que estamos fazendo é resgatar essa sabedoria ancestral.
Oferecer uma vaga por contribuição espontânea representa muito além de um ato de caridade, desvalorização profissional ou, muito menos, um “desconto”. É um convite para sairmos da lógica de mercado e entrarmos na lógica da relação.
Eu ofereço o meu tempo e a minha escuta técnica elaborada em quatro décadas de atuação clínica. Você recebe esse espaço de fala, discrição e exclusividade. E, juntos, estabelecemos como o Hau vai retornar — através de uma contribuição financeira que seja justa para a sua realidade e que sustente o meu trabalho.
No fundo, a análise é um processo de desatar nós internos. Na prática clínica, aplicar a Economia Sagrada significa desatar outro nó; o que prende o tratamento psicanalítico ao poder aquisitivo. Que tal começarmos desatando, justamente, o nó que prende o cuidado humano exclusivamente à lógica do dinheiro?
Identifico como pilares desse modelo:
a) Gratidão em vez de Obrigação: O pagamento não é uma taxa fixa imposta, mas uma expressão de gratidão pelo valor que o processo gera na sua vida e no seu bem-estar.
b) Confiança Mútua: Eu confio que você oferecerá o seu melhor dentro das suas possibilidades; você confia que receberá uma escuta ética e dedicada, independente do valor financeiro.
c) Sustentabilidade Consciente: Além de valorizar o trabalho do analista, o modelo de Economia Sagrada visa permitir que quem tem mais possa contribuir mais (sustentando o fluxo) e quem tem menos possa acessar o espaço sem culpa.
A Economia Sagrada é um pacto de maturidade, onde o dinheiro volta a ser o que deveria ser: um facilitador de trocas humanas, e não mais uma barreira. Se você sente que é hora de colocar suas questões no divã, dentro desse fluxo de confiança, as portas estão abertas.
Mande uma mensagem privada, a gente combina o início.




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