top of page

O que é a Economia Sagrada e por que adoto esse modelo em sessões de análise?

Foto do escritor: Airton Calmo
Airton Calmo
17 de mai.
3 min de leitura

Atualizado: 30 de ago.


Quando encontramos a palavra “sagrado”, muitas vezes pensamos em religião.

E, de fato, o termo sagrado refere-se a tudo que é digno de veneração, respeito profundo ou que possui caráter divino. Trata-se daquilo que é consagrado a Deus ou aos ritos de uma religião. Entretanto, o sagrado também diz respeito a resgatar o valor das relações humanas, da confiança e da interdependência.


Dia desses, ao informar que estou oferecendo escuta psicanalítica sob o formato de contribuição espontânea — guiado pelo conceito de Economia Sagrada de Charles Eisenstein —, alguém me perguntou: “Mas isso funciona no mundo real?”

Para responder, preciso dar um salto no tempo e na antropologia.

Em 1925, um antropólogo francês chamado Marcel Mauss escreveu sua obra maior intitulada “Ensaio sobre a Dádiva”. Esse autor percebeu, estudando a vida entre os índios Maori, que, muito antes da invenção do cartão de crédito e código de barras, as sociedades se organizavam sob uma regra invisível, mas sagrada: dar, receber e retribuir.

Entre os povos nativos da Nova Zelândia, havia a crença no Hau — a alma das coisas que nos são dadas. Se você recebe algo, o Hau pede que aquilo continue circulando. Reter, acumular ou negar a retribuição quebrava o fluxo e adoecia a comunidade. O comércio moderno nos fez esquecer o Hau. Transformamos tudo numa fria transação comercial. Você me paga X, eu te entrego Y, tchau e bênção. Não há vínculo.

O conceito de Hau foi ressignificado pelo filósofo e escritor norte-americano Charles Eisenstein, sob o termo Economia Sagrada, e, propõe uma transição da lógica da escassez, onde tudo é precificado, competido e acumulado, para a lógica da dádiva; quando reconhecemos que tudo o que recebemos é um presente da vida e que o cuidado deve circular.

Quando Eisenstein propõe a Economia Sagrada, e quando eu trago esse conceito para o setting analítico, o que estamos fazendo é resgatar essa sabedoria ancestral.

Oferecer uma vaga por contribuição espontânea representa muito além de um ato de caridade, desvalorização profissional ou, muito menos, um “desconto”. É um convite para sairmos da lógica de mercado e entrarmos na lógica da relação.

Eu ofereço o meu tempo e a minha escuta técnica elaborada em quatro décadas de atuação clínica. Você recebe esse espaço de fala, discrição e exclusividade. E, juntos, estabelecemos como o Hau vai retornar — através de uma contribuição financeira que seja justa para a sua realidade e que sustente o meu trabalho.

No fundo, a análise é um processo de desatar nós internos. Na prática clínica, aplicar a Economia Sagrada significa desatar outro nó; o que prende o tratamento psicanalítico ao poder aquisitivo. Que tal começarmos desatando, justamente, o nó que prende o cuidado humano exclusivamente à lógica do dinheiro?


Identifico como pilares desse modelo:


a) Gratidão em vez de Obrigação: O pagamento não é uma taxa fixa imposta, mas uma expressão de gratidão pelo valor que o processo gera na sua vida e no seu bem-estar.

b) Confiança Mútua: Eu confio que você oferecerá o seu melhor dentro das suas possibilidades; você confia que receberá uma escuta ética e dedicada, independente do valor financeiro.

c) Sustentabilidade Consciente: Além de valorizar o trabalho do analista, o modelo de Economia Sagrada visa permitir que quem tem mais possa contribuir mais (sustentando o fluxo) e quem tem menos possa acessar o espaço sem culpa.

A Economia Sagrada é um pacto de maturidade, onde o dinheiro volta a ser o que deveria ser: um facilitador de trocas humanas, e não mais uma barreira. Se você sente que é hora de colocar suas questões no divã, dentro desse fluxo de confiança, as portas estão abertas.

Mande uma mensagem privada, a gente combina o início.

 
 
 

Comentários


WhatsApp: (51) 98413-3145

E-mail: joseairtoncalmo@gmail.com

  • Whatsapp
  • Instagram
  • Facebook
  • LinkedIn

​

​

airtoncalmo

149 posts

176 followers

147 following

Psicanálise para pensar a vida além das respostas prontas.
Autor de Chimarreando com Freud.
Reflexões sobre inconsciente, sonhos, cultura e cotidiano.

© 2026 Airton Calmo — Psicanalista, autor e pesquisador.

bottom of page