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Por que mesmo eu preciso fazer psicoterapia?

Foto do escritor: Airton Calmo
Airton Calmo
21 de abr.
3 min de leitura

Atualizado: 23 de abr.


Uma reflexão desde o lugar do analista.

A pergunta surge, não raro, com a aparência de uma objeção pragmática: “Por que eu precisaria fazer psicoterapia?” — como se se tratasse de avaliar a utilidade de um instrumento, de mensurar custo-benefício, de justificar um investimento. No entanto, o que se apresenta como dúvida objetiva costuma já ser, em si, um primeiro enunciado do sujeito diante do próprio enigma.

Para um psicanalista, essa questão não é simplesmente respondida — ela é escutada.

Vivemos numa ilusão de autossuficiência, sob o imperativo contemporâneo da autonomia: saber-se, controlar-se, gerir-se. Nesse cenário de coaching, a ideia de recorrer a uma psicoterapia pode ser vivida como um sinal de insuficiência. Algo como:

“Se eu fosse suficientemente forte, lúcido ou resolvido, não precisaria disso.”

Mas essa lógica parte de um equívoco estrutural: o de que o sujeito é transparente para si mesmo.

A psicanálise introduz uma ruptura nessa crença. O sujeito não coincide consigo. Há uma divisão constitutiva — entre o que se diz e o que se quer dizer, entre o que se sabe e o que insiste sem se saber. É nesse hiato que se inscreve o inconsciente.

Muitas vezes, a busca por psicoterapia se dá quando algo falha: um sofrimento que não cede, um padrão que se repete, um corpo que adoece, uma relação que se rompe sempre do mesmo modo. O sintoma atuando como mensagem, aparece como obstáculo — mas, na leitura psicanalítica, ele é também uma formação de compromisso, uma tentativa de solução.

Perguntar “por que fazer psicoterapia?” pode ser, portanto, o avesso de outra pergunta: “o que em mim insiste em se repetir, apesar de mim?”

A análise não promete eliminar o sintoma como quem remove um defeito. Ela propõe escutá-lo, decifrá-lo, recolocá-lo no campo da palavra. O sintoma fala — ainda que de forma cifrada.

Há uma diferença crucial entre saber e verdade; entre saber sobre si e produzir verdade sobre si. O primeiro pode ser acumulado: leituras, teorias, reflexões. O segundo é sempre singular e implica uma travessia subjetiva.

É por isso que, mesmo um psicanalista — alguém que estudou teorias, leu autores, escutou inúmeros pacientes — não está isento da própria análise. Ao contrário: sua prática exige que ele tenha atravessado, ao menos em parte, esse percurso.

Não se trata de coerência ética apenas, mas de posição clínica. Como sustentar a escuta do outro sem ter experimentado o lugar de quem fala sem saber exatamente o que diz?

A psicoterapia, especialmente na vertente psicanalítica, não é um espaço de aconselhamento nem de orientação direta. É um dispositivo onde a fala ganha estatuto de trabalho. É a experiência da fala.

Falar — e ser escutado — não é trivial. Ao falar livremente, algo escapa ao controle da intenção. O sujeito se surpreende com o que diz. E é nesse ponto que algo do inconsciente se deixa entrever.

A pergunta inicial — “por que eu precisaria?” — pode, ao longo de um processo, deslocar-se para outra: “o que eu faço com aquilo que não cessa de se repetir em mim?”

Seria impreciso afirmar que todos “precisam” de psicoterapia. A psicanálise não opera sob o registro da prescrição universal.

Aparentemente, nem todos precisam — mas alguns não podem não fazer. Há momentos em que o sofrimento psíquico deixa de ser contornável pelas soluções habituais. Quando o sujeito se vê capturado por algo que o excede, a análise pode tornar-se não uma opção, mas uma necessidade lógica.

Não porque ofereça garantias de felicidade ou assegure a cura do sintoma, mas porque abre um campo de elaboração.

Talvez a resposta mais rigorosa à pergunta inicial seja esta: não se trata de responder por que você precisa, mas de sustentar a pergunta até que ela se transforme.

A pergunta é o próprio ponto de partida. Se a questão foi colocada, algo já se moveu. Há aí uma fissura na certeza, um vacilo na narrativa estabelecida. E é precisamente nesse ponto que a psicanálise começa.

Perguntar-se sobre a necessidade de psicoterapia é, paradoxalmente, já estar implicado nela. A questão não vem de fora; ela emerge do próprio sujeito, ainda que sob a forma de dúvida ou resistência.

A análise não se inicia com uma resposta convincente, mas com uma pergunta que insiste.

E, por vezes, é essa insistência que indica o caminho.

 
 
 

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airtoncalmo

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Psicanálise para pensar a vida além das respostas prontas.
Autor de Chimarreando com Freud.
Reflexões sobre inconsciente, sonhos, cultura e cotidiano.

© 2026 Airton Calmo — Psicanalista, autor e pesquisador.

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