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PSICOTERAPIA PSICANALÍTICA.MITO E REALIDADE:

Foto do escritor: Airton Calmo
Airton Calmo
14 de out. de 2024
8 min de leitura

Atualizado: 30 de ago.




Nota editorial

Este texto foi originalmente publicado em 2024. A presente versão foi revista e ampliada a partir das questões que vêm orientando minha trajetória atual na Psicanálise.

Versão revista — 2026

Psicanálise: entre a escuta, o inconsciente e aquilo que ainda não sabemos


Durante algum tempo, este espaço apresentou um texto, mantido como referência no arquivo deste site, sobre psicoterapia psicanalítica organizado em torno de uma fórmula bastante conhecida: “mito e realidade”.

Hoje eu o substituiria.

Não porque aquilo que foi escrito estivesse necessariamente errado, mas porque já não corresponde à maneira como compreendo a psicanálise. A experiência, os estudos e as perguntas que foram surgindo pelo caminho tornaram insuficiente qualquer tentativa de apresentar a psicanálise como um conjunto de respostas prontas para aqueles que procuram ajuda.

Talvez seja mais honesto começar justamente pela dúvida.

O que fazemos quando fazemos psicanálise?

A pergunta até parece simples, mas não é.


Freud e a descoberta de que não somos inteiramente senhores de nós mesmos


A psicanálise nasceu de uma ruptura.

Freud não descobriu simplesmente que as pessoas tinham conflitos, traumas ou emoções reprimidas. Essas coisas já eram conhecidas, de diferentes maneiras, antes dele. Sua ruptura foi outra: ele levou a sério a hipótese de que uma parte fundamental daquilo que somos não está disponível à nossa consciência.

O inconsciente freudiano não é apenas um depósito de coisas esquecidas. É uma dimensão ativa, dinâmica, da vida psíquica, capaz de interferir naquilo que pensamos querer, naquilo que dizemos, nos nossos sonhos, sintomas, esquecimentos, repetições e escolhas. A associação livre surgiu justamente como tentativa de permitir que aquilo que normalmente é censurado ou organizado pela consciência pudesse encontrar alguma forma de expressão.

É aí que começa uma das características mais desconcertantes da psicanálise.

O sujeito que procura análise não é necessariamente aquele que sabe o que lhe acontece.

Ele pode saber que sofre. Pode saber que repete determinados comportamentos. Pode reconhecer que determinadas relações lhe fazem mal. Pode até formular perfeitamente o seu problema.

Mas saber o problema não significa necessariamente saber aquilo que o produz.

Por isso, a psicanálise não se organiza prioritariamente em torno da oferta de conselhos. Seu instrumento fundamental é a escuta.

Freud percebeu progressivamente que ouvir era mais importante do que conduzir. A chamada “cura pela fala” não significa simplesmente falar para aliviar-se. Trata-se de permitir que a fala produza associações, desvios, contradições e descobertas que não estavam previstas no início da conversa.

E talvez seja justamente aí que começa a diferença entre uma conversa amigável e uma experiência analítica.


A psicanálise não permaneceu em Freud


Existe uma imagem bastante difundida segundo a qual psicanálise seria sinônimo de Freud, divã, infância, sexualidade e interpretação dos sonhos.

Essa imagem é compreensível, mas insuficiente.

A história da psicanálise foi também a história de suas próprias crises, revisões e dissidências.

Melanie Klein deslocou a atenção para as relações de objeto, as fantasias primitivas e os modos muito precoces pelos quais o sujeito organiza sua relação com o outro. Donald Winnicott, por sua vez, reescreveu conceitos fundamentais da tradição freudiana a partir da importância do ambiente, do cuidado e das condições necessárias para que um sujeito possa vir a existir de maneira suficientemente integrada.

Em Winnicott, algo particularmente importante acontece: a pergunta deixa de ser apenas “o que foi reprimido?” e passa também a envolver as condições que permitiram — ou não — que uma experiência pudesse ser integrada ao próprio sentimento de existir.

Lacan introduziu outra torção decisiva.

Ao retornar a Freud por meio da linguagem, da linguística e da filosofia, deslocou a compreensão do inconsciente para o campo do significante, do desejo e da constituição do sujeito. A frase frequentemente associada a Lacan — “o inconsciente é estruturado como uma linguagem” — não significa que o inconsciente seja simplesmente uma espécie de texto escondido dentro da cabeça. Ela aponta para o fato de que somos atravessados pela linguagem antes mesmo de podermos nos reconhecer como sujeitos dela.

Freud, Klein, Winnicott e Lacan não dizem exatamente a mesma coisa.

E talvez seja importante que não digam.

A vitalidade da psicanálise não está em possuir uma doutrina perfeitamente fechada, mas na capacidade de continuar interrogando aquilo que ela mesma acreditava ter compreendido.

Já Carl Jung ocupa um lugar peculiar na história do estudo do inconsciente.

Sua ruptura com Freud não foi um simples desacordo teórico. Ela abriu outro caminho para pensar o inconsciente, os símbolos, os sonhos, os arquétipos e a dimensão coletiva da experiência psíquica.

A Psicologia Analítica não é uma extensão da psicanálise freudiana. Tampouco deveria ser apresentada como se ambas fossem apenas nomes diferentes para a mesma coisa.

Há diferenças epistemológicas, clínicas e conceituais importantes. Em comum, trazem o reconhecimento do inconsciente.

Mas há também uma zona de diálogo que me interessa particularmente: a tentativa de compreender o ser humano para além daquilo que ele consegue explicar racionalmente sobre si mesmo.

Jung permite que o sonho seja considerado não apenas como uma formação a ser decifrada em função de uma história pessoal, mas também como uma produção simbólica que pode colocar o sujeito diante de imagens, conflitos e possibilidades que ultrapassam a narrativa consciente que ele construiu sobre si.

Aliás, Freud ficou conhecido pela teoria do inconsciente pessoal, enquanto a proposta teórica de um inconsciente coletivo foi plenamente assumida por Jung embora seja possível perceber traços dessa teoria nas entrelinhas da obra freudiana, mas isso é assunto para outro momento.

Essa perspectiva ampliou minhas próprias perguntas.

E as perguntas, na psicanálise, costuma ser mais fecundas do que as próprias respostas.


O que acontece quando a clínica encontra o sagrado?


É neste ponto que minha trajetória começou a tomar outro rumo.

O contato com o xamanismo e, particularmente, com as experiências relacionadas à ayahuasca, não me levou a abandonar a psicanálise.

Ao contrário. Levou-me a fazer perguntas mais difíceis sobre seus limites.

Não me interessa afirmar que o xamanismo “comprova” a psicanálise. Tampouco me interessa transformar experiências com estados ampliados de consciência em uma nova espécie de psicoterapia ou oferecer o espiritual como solução para aquilo que a clínica não consegue resolver.

Seria uma simplificação tão problemática quanto acreditar que a ciência possui a palavra final sobre toda experiência humana.

O que me interessa é o espaço entre esses campos.

Durante séculos, diferentes culturas desenvolveram maneiras próprias de lidar com o sofrimento, a doença, o sonho, a morte, os ancestrais, a natureza e aquilo que chamamos de sagrado. A antropologia nos mostra que aquilo que uma sociedade considera realidade, símbolo, doença ou cura não é necessariamente interpretado da mesma maneira por outra comunidade.

Isso não significa que todas as explicações tenham o mesmo valor.

Significa apenas que talvez devêssemos ser mais cuidadosos antes de decidir aquilo que pode ou não fazer parte da experiência humana.

É nesse ponto que o xamanismo começa a me interessar não como uma alternativa simplista à psicanálise, mas como um outro modo de perguntar pelo humano.

E talvez a palavra mais importante nessa aproximação seja justamente aquela que dá nome a um lugar que atravessa minha própria trajetória: Ouvidor.


Ouvir antes de explicar


Há algo profundamente psicanalítico na ideia de ouvir.

Ouvir aquilo que o sujeito diz.

Ouvir aquilo que ele não consegue dizer.

Ouvir suas repetições. Ouvir seus silêncios. Ouvir o corpo quando a palavra falha. Ouvir o sonho.

Mas talvez seja necessário aprender também a ouvir aquilo que não se apresenta imediatamente como discurso.

A natureza. Os símbolos. Os rituais. Os estados modificados de consciência. As experiências de pertencimento. O mistério.

Isso não significa abandonar o rigor da clínica para aceitar qualquer interpretação espiritual como verdade.

Significa reconhecer que o desconhecido continua existindo, inclusive dentro de nós.

A psicanálise nasceu justamente quando Freud decidiu levar a sério aquilo que a razão de seu tempo tinha dificuldade de explicar.

Talvez uma psicanálise contemporânea possa conservar essa disposição sem precisar transformar tudo em psicanálise.


Afinal, para que serve uma psicoterapia psicanalítica?


Talvez esta seja a pergunta que deveria substituir os antigos “mitos e realidades”.

Uma psicoterapia psicanalítica não é uma promessa de felicidade. Não é um manual para viver melhor. Não é uma técnica para eliminar rapidamente sintomas.

Também não é uma conversa na qual o terapeuta oferece respostas para a vida do paciente.

E não precisa ser apresentada como superior às demais formas de psicoterapia. Ela é, basicamente, uma experiência particular de escuta e investigação da vida psíquica.

Parte da hipótese de que aquilo que nos acontece possui determinações que nem sempre conhecemos. Trabalha com a palavra, com a transferência, com as resistências, com os sintomas, com os sonhos, com as repetições e com as contradições que aparecem no próprio processo de falar.

Mas, sobretudo, trabalha com uma ideia que continua sendo desconcertante: talvez eu não saiba inteiramente quem sou.

E talvez não seja necessário saber.

Talvez o trabalho analítico consista menos em descobrir uma identidade definitiva e mais em suportar o percurso de tornar-se alguém capaz de reconhecer suas próprias contradições, seus desejos, seus limites e suas possibilidades.

Não existe garantia de que esse percurso seja rápido. Nem de que seja confortável. Nem sequer de que produza as respostas que inicialmente procurávamos.

Mas pode produzir algo mais interessante: novas perguntas.


Na trilha do ouvidor


É a partir dessas perguntas que nasce uma etapa nova na minha própria trajetória.

Entre a psicanálise, a psicologia analítica, a antropologia e o estudo do xamanismo, comecei a perceber que talvez não seja necessário escolher entre razão e espiritualidade, ciência e experiência, clínica e símbolo.

Também não acredito que devamos misturá-los indiscriminadamente. Há diferenças que precisam ser preservadas. O desafio está justamente em construir pontes sem destruir as margens.

É esse o caminho que venho tentando percorrer em Na trilha do ouvidor, projeto de livro no qual procuro investigar um possível diálogo entre psicanálise e xamanismo a partir da experiência da escuta, do inconsciente e do sagrado.

Não se trata de concluir que um campo confirma o outro. Trata-se de caminhar. E talvez caminhar seja uma boa metáfora para qualquer investigação verdadeiramente aberta.

Porque, quando acreditamos já saber exatamente onde estamos indo, deixamos de escutar aquilo que aparece no caminho.

Talvez a psicanálise tenha me ensinado a ouvir o que fala por trás da palavra. Talvez Jung tenha me ensinado a prestar mais atenção ao símbolo. Talvez o xamanismo esteja me ensinando a ouvir aquilo que não se deixa reduzir imediatamente à palavra ou ao conceito.

E talvez seja justamente nessa região de fronteira que esteja, hoje, aquilo que ainda tenho a aprender.

Na trilha do ouvidor, portanto, não procuro uma resposta definitiva.

Procuro continuar escutando.


Nota sobre a versão original

Abaixo preservo a versão originalmente publicada em 2024, como registro de um momento anterior da minha trajetória. A manutenção deste texto não pretende estabelecer uma hierarquia entre as duas versões, mas permitir que o leitor acompanhe a transformação das perguntas que orientam meu trabalho.

Versão original — 2024


A terapia psicanalítica é uma jornada profunda de autoconhecimento e cura. Porém, alguns mitos cercam essa abordagem. Vamos esclarecer alguns pontos?

🔍 Mito: A terapia psicanalítica é só para quem tem problemas graves.

Realidade: A psicoterapia psicanalítica é útil para quem deseja compreender melhor a si mesmo, emoções e padrões de comportamento, bem como suas determinações inconscientes. Nunca foi exclusiva para momentos de crises intensas. Prevenção é sempre a melhor conduta, em qualquer atividade humana.

🛋 Mito: É só deitar no divã e falar sobre o passado.

Realidade: Embora a abordagem do passado seja importante, a terapia psicanalítica também foca no presente e em como as experiências passadas influenciam o comportamento atual. Quanto ao divã, varias são as situações e momentos para utilizá-lo ou optar por um outro ambiente acolhedor.

💬 Mito: A psicanálise é um processo rápido.

Realidade: A terapia psicanalítica pode levar tempo. É um processo gradual que visa uma compreensão mais profunda e duradoura das questões emocionais. Pode ser breve se o objetivo for resolver casos pontuais. É interessante considerar a psicanálise como um projeto de vida.

👂 Mito: O psicanalista sempre dá conselhos e soluções prontas.

Realidade: O papel do psicanalista é ajudar você a explorar e entender seus sentimentos, emoções e pensamentos, para que você possa encontrar suas próprias soluções e caminhos. Em geral, no desenrolar da análise, quem encontra as soluções é o analisando.

🌟 A Psicoterapia Psicanalítica oferece um espaço seguro e acolhedor para a exploração, compreensão e convívio com as emoções e sentimentos mais profundos do individuo/sujeito. Pode ajudar a desenvolver maior consciência de si mesmo e promover mudanças significativas na vida.

Se você está curioso sobre como a terapia psicanalítica pode ajudá-lo, não hesite em buscar mais informações e considerar essa jornada de autoconhecimento!

 
 
 

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Psicanálise para pensar a vida além das respostas prontas.
Autor de Chimarreando com Freud.
Reflexões sobre inconsciente, sonhos, cultura e cotidiano.

© 2026 Airton Calmo — Psicanalista, autor e pesquisador.

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