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Quanto custa o seu sofrimento?

Foto do escritor: Airton Calmo
Airton Calmo
22 de set. de 2024
6 min de leitura

Atualizado: 30 de ago.

Nota editorial

Este texto foi originalmente publicado em 2024. A presente versão foi revista e ampliada a partir das questões que vêm orientando minha trajetória atual na Psicanálise.

Quanto custa o seu sofrimento?


Há perguntas que parecem simples até percebermos o que elas realmente perguntam.

Quanto custa o seu sofrimento?

A primeira resposta talvez seja econômica. Quanto gastamos com consultas, exames, medicamentos, tratamentos, afastamentos do trabalho? Quanto perdemos em produtividade, em oportunidades, em relações que se desgastam?

Mas há uma outra dimensão do custo que não aparece em nenhuma conta bancária.

Há sofrimentos que custam noites de sono. Outros custam relacionamentos. Alguns consomem anos. Há aqueles que diminuem pouco a pouco nossa capacidade de desejar, de criar, de experimentar a vida.

E há sofrimentos que parecem não ter fim porque, apesar de desejarmos profundamente que desapareçam, continuamos de algum modo repetindo as condições que os produzem.

É nesse ponto que a pergunta começa a interessar à Psicanálise.


Quando o sofrimento precisa ter um preço


Vivemos em uma época que tem grande dificuldade em suportar aquilo que não pode ser rapidamente resolvido.

A tristeza precisa desaparecer. A ansiedade precisa ser controlada. O insucesso precisa ser corrigido. O corpo precisa funcionar perfeitamente. O desconforto precisa receber um nome e, frequentemente, uma solução.

Não há nada de errado em procurar alívio quando sofremos.

O problema começa quando passamos a acreditar que todo sofrimento é necessariamente um defeito que precisa ser eliminado.

Nesse cenário, o sofrimento acaba por entrar também na lógica do consumo.

Compramos alguma coisa para nos sentirmos melhor. Procuramos uma explicação. Buscamos um diagnóstico. Trocamos de tratamento. Procuramos uma técnica. Esperamos que alguém nos ofereça uma resposta capaz de devolver rapidamente aquilo que acreditamos ter perdido: tranquilidade, desempenho, autoestima, felicidade.

E, algumas vezes, realmente encontramos ajuda.

Mas outras vezes apenas mudamos a forma de administrar o sofrimento sem jamais nos perguntarmos o que ele está fazendo em nossa vida.


O sofrimento que se repete


A Psicanálise introduz aqui uma pergunta pouco confortável.

Se determinada maneira de viver nos faz sofrer, por que continuamos sempre repetindo a mesma coisa?

Freud percebeu que o sujeito nem sempre se orienta pelo princípio aparentemente simples de buscar prazer e evitar desprazer. Há experiências que se repetem mesmo quando conscientemente gostaríamos de abandoná-las.

Escolhas semelhantes. Relacionamentos semelhantes. Conflitos semelhantes.

Frustrações semelhantes.

Como se alguma coisa em nós insistisse em retornar ao mesmo lugar.

Isso não significa que alguém escolha sofrer conscientemente.

Essa distinção é fundamental.

Não se trata de culpabilizar o sujeito pelo seu sofrimento. Trata-se de reconhecer que existe uma dimensão inconsciente de nossas escolhas, de nossos vínculos e de nossas repetições que não controlamos inteiramente.

É justamente aí que o sofrimento deixa de ser apenas um acontecimento externo e passa a colocar uma pergunta sobre o sujeito.


O preço da repetição


É bem possível que o custo mais alto não seja aquele que pagamos uma única vez. Talvez seja aquele que pagamos continuamente sem perceber.

Uma relação que se desfaz sempre da mesma maneira.

Uma dificuldade profissional que reaparece apesar das mudanças de emprego.

Uma insatisfação que retorna mesmo depois de alcançarmos aquilo que acreditávamos desejar.

Uma necessidade permanente de reconhecimento. Uma sensação de vazio que nenhuma conquista parece preencher.

Nesses casos, aumentar simplesmente o esforço pode não ser suficiente.

É possível que estejamos tentando resolver, pela via consciente, alguma coisa que pertence a outra ordem.

A análise começa justamente quando conseguimos deixar de perguntar apenas: “Como faço para parar de sofrer?”, e começamos a perguntar:

“O que estou repetindo?”


O sofrimento não é uma culpa


Existe, porém, um cuidado necessário.

Falar de repetição inconsciente não significa dizer que somos responsáveis por tudo aquilo que nos acontece.

Há sofrimento produzido por condições sociais, econômicas, históricas e relacionais concretas. Há violência, perdas, doenças, desigualdades, acidentes e acontecimentos que não podem ser reduzidos à história psíquica individual.

A Psicanálise não precisa negar o mundo externo para reconhecer a dimensão inconsciente do sujeito.

O que ela acrescenta é outra pergunta: o que fazemos, psiquicamente, com aquilo que nos acontece?

Duas pessoas podem atravessar experiências semelhantes e construir destinos subjetivos muito diferentes.

É nessa diferença que a singularidade aparece.


E quanto custa não se escutar?


Talvez seja essa a pergunta que estava escondida desde o começo.

Quanto custa permanecer indefinidamente submetido a uma forma de sofrimento que já se tornou familiar?

Porque o conhecido pode ser doloroso e, ainda assim, oferecer uma espécie de segurança. O sujeito pode reclamar daquilo que vive e, simultaneamente, temer profundamente a possibilidade de viver de outra maneira.

Mudar não significa simplesmente abandonar um comportamento. Significa muitas vezes abrir mão de uma posição subjetiva conhecida e enfrentar a incerteza que aparece quando já não podemos contar com nossas antigas respostas.

É compreensível que isso provoque resistência.

Afinal, até o sofrimento pode adquirir uma função dentro da nossa economia psíquica.


O que pode fazer uma análise?


A Psicanálise não deve ser apresentada como uma promessa de eliminar o sofrimento. Nem como uma fórmula para alcançar uma vida permanentemente equilibrada.

Uma análise oferece outra coisa: um espaço em que aquilo que causa sofrimento possa ser colocado em palavras e escutado em sua singularidade.

Isso pode parecer pouco diante da urgência de quem sofre. Mas falar não é simplesmente desabafar.

Na experiência analítica, a palavra pode produzir deslocamentos. Aquilo que parecia natural pode tornar-se estranho. Aquilo que parecia inevitável pode começar a ser questionado. Uma repetição pode ser reconhecida. Um desejo pode aparecer onde antes havia apenas queixa.

Não se trata de encontrar uma resposta pronta.

Trata-se de construir uma pergunta que possa realmente pertencer ao sujeito.


Mas, afinal, quanto custa o seu sofrimento?


Talvez não seja possível calcular.

O sofrimento não cabe inteiramente em uma planilha de despesas, em um diagnóstico, em uma prescrição ou em uma estatística.

Há custos que podem ser contabilizados. Outros não.

Alguns aparecem no corpo, no trabalho, nas relações e no cotidiano.

Outros aparecem apenas quando percebemos que pa

ssamos anos esperando que alguma coisa mudasse enquanto continuávamos repetindo os mesmos caminhos.

Por isso, talvez a pergunta mais radical não seja: Quanto custa sofrer?

Mas: Quanto custa continuar pagando pelo mesmo sofrimento?

A resposta pertence a cada sujeito.

E talvez uma análise comece justamente quando essa pergunta deixa de ser apenas uma reflexão e passa a ser uma pergunta dirigida à própria vida.




Nota sobre a versão original

Abaixo, preservo a versão originalmente publicada em 2024, como registro de um momento anterior da minha trajetória. Sua permanência permite acompanhar não apenas a transformação do texto, mas também a transformação das perguntas que orientam meu trabalho.

Versão original — 2024

O sofrimento, embora não apresente um valor monetário mensurável, tem um peso significativo na vida de cada pessoa, afetando o bem-estar emocional, físico e social. É um "custo" que muitas vezes só pode ser compreendido pela própria experiência subjetiva.


A questão "Quanto custa o seu sofrimento?" pode ser vista como uma reflexão sobre o quanto estamos dispostos a investir em nosso próprio bem-estar e no processo de autoconhecimento, não só em termos financeiros, mas também em tempo, energia e dedicação para enfrentar os desafios internos.


O sofrimento diário, seja físico ou emocional, ao longo dos anos pode ter um custo imensurável. O impacto do sofrimento contínuo se manifesta em várias áreas da vida, muitas vezes de forma silenciosa e cumulativa.


Vamos pensar em alguns desses "custos":

  • Saúde Mental e Física: O sofrimento prolongado pode levar ao desenvolvimento de transtornos como depressão, ansiedade crônica, insônia, entre outros. Isso pode exigir tratamentos caros; consultas médicas e uso contínuo de medicações, além do convívio constante com problemas como dores crônicas, fadiga e doenças psicossomáticas.

  • Relações Pessoais: A dor emocional pode corroer as relações afetivas e sociais, gerando isolamento, conflitos e dificuldades de comunicação. O custo aqui é a perda de conexões significativas e de apoio emocional, o que pode aumentar ainda mais o sofrimento.

  •  Vida Profissional: A dificuldade em lidar com emoções pode impactar negativamente o desempenho no trabalho, resultando em perda de produtividade, dificuldade de crescimento profissional, estresse ocupacional e até demissões. Esse custo pode ser direto, na perda de renda, ou indireto, na falta de motivação e criatividade.

  • Qualidade de Vida: O sofrimento emocional pode fazer com que a vida perca o brilho, tornando atividades diárias um peso e roubando momentos de alegria e satisfação. O custo aqui é a incapacidade de aproveitar a vida plenamente, o que, no longo prazo, pode gerar arrependimentos e uma sensação de vazio.

  • Investimento Emocional e Psicológico: A falta de atenção ao sofrimento pode levar a uma sensação de estagnação pessoal e à perda de oportunidades de crescimento e autoconhecimento. O custo emocional é enorme, pois a pessoa pode sentir que está "presa" em padrões negativos sem saber como sair deles.


O custo de sofrer emocionalmente durante anos é muito maior do que o custo financeiro e dificilmente pode ser medido.

É um investimento negativo que corrói a saúde, as relações e a própria capacidade de viver com plenitude.


A questão que se coloca é: estamos dispostos a investir para transformar esse cenário? O valor gasto em medicamentos, que não curam, vale a pena?


Na psicanálise, busca-se justamente ajudar a pessoa a compreender a origem do seu sofrimento e trabalhar arduamente para encontrar formas de alívio, de modo a viver uma vida mais plena e equilibrada. 




 
 
 

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airtoncalmo

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Psicanálise para pensar a vida além das respostas prontas.
Autor de Chimarreando com Freud.
Reflexões sobre inconsciente, sonhos, cultura e cotidiano.

© 2026 Airton Calmo — Psicanalista, autor e pesquisador.

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