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Reflexões de um Psicanalista Ayahuasqueiro

Foto do escritor: Airton Calmo
Airton Calmo
15 de ago.
6 min de leitura

O processo de mudança se inicia pela Intenção.

A vontade, a volição, o desejo, embora conceitualmente sejam coisas diferentes, em última instância, trata-se do motor do processo.

Ouvi ontem, num momento de compartilhar de uma cerimônia espiritual um pouco diferente, que esse trabalho se inicia no momento do agendamento do evento, seja ele uma sessão terapêutica ou uma consagração das medicinas sagradas.

Concordo plenamente e constato que, na perspectiva das medicinas da floresta, e particularmente da Ayahuasca—uma bebida enteógena ancestral da Amazônia, a resposta procurada vem de dentro de nós.

Minha busca atual é encontrar o caminho e construir um formato que permita oferecer um projeto terapêutico através da escuta, de manifestação pela fala, pela ação da palavra e pela linguagem.

Há algum tempo venho tentando compreender mais precisamente do que trata esse desejo e como desenvolver um espaço que permita a realização deste projeto.

Desde setembro de 2025 venho participando de cerimonias de consagração das medicinas da floresta conduzidas com carinho, pela paciência e pelo amor por um pequeno grupo de pessoas iniciadas nas práticas xamânicas. Essa caminhada vem se construindo com o tempo e com a repetição, quase mensal, das experiências de expansão de consciência propiciada pela utilização ritual do chá denominado Ayahuasca.

Não se trata mais de compreender ou acreditar no poder de expandir a consciência através da beberagem indígena ancestral, isso vem sendo estudado há bastante tempo por cientistas de mente aberta como o Dr. Wilson Gonzaga, Dr. Draulio Araújo e outros profissionais bem mais qualificados e preparados do que eu.

Tenho buscado, nesta caminhada, entender o que representa essa trajetória no momento de vida em que promovo a transição da prática odontológica e da vida empresarial, para a vivência da escuta clínica amparado nos conhecimentos da psicanálise.

Não sou um psicanalista clássico, prefiro aderir à denominação que surgiu na fala de uma participante no momento do compartilhar numa consagração.

Sou um Psicanalista Ayahuasqueiro, seja lá o que isso possa significar.

Acredito no poder da palavra tanto quanto acredito no poder de práticas ancestrais atualmente referidas como medicinas da floresta.

A ciência moderna, especificamente a neurociência está bem perto de chancelar processos e procedimentos terapêuticos com a utilização de substâncias psicoativas pouco convencionais outrora tidas como psicotrópicos, tornados ilegítimos pela incompreensão, por preconceitos e/ou por interesses econômicos. Atualmente, o uso de Ayahuasca e outras medicinas da floresta são reconhecidos e legitimados no Brasil, apenas no contexto ritualístico religioso, ou com o propósito de pesquisa científica.

Evidentemente, a prescrição, o acesso e o uso das medicinas sagradas necessita ser mediado por pessoas e intenções sérias e comprometidas com o bem-estar de quem procura nesse campo espiritual e terapêutico um caminho que a medicina clássica ocidental não consegue oferecer de forma plena.

Não se trata de renegar o conhecimento ocidental. É mais correto que se perceba o momento histórico em que vivemos: a crise na saúde mental que vem afetando todo o planeta e compromete a capacidade de resposta dos sistemas de saúde; como uma virada necessária para a compreensão e incorporação da vertente espiritual, tão negligenciada, na prática clínica ocidental.

Minha trajetória acadêmica, iniciada há mais de 40 anos pela graduação interrompida em Farmácia, transitou pela Odontologia como profissão, pelas Ciências Sociais e Antropologia como formação complementar e após a transição para a Psicanálise Clássica Freudiana e, mais recentemente, através de conhecimentos da Psicologia Analítica de Carl Jung me conduziu ao encontro com as práticas xamânicas e com as medicinas da floresta.

Escrevo, neste momento, após uma reunião que se esperava ser uma consagração típica das medicinas da floresta com o uso ritualístico de Ayahuasca, passagem de Rapé e Sananga, protocolo que auto instituí como eficaz nesta caminhada individual de busca de algum conhecimento. Entretanto, a organização espaço temporal literalmente (inclusive no aspecto climático) não permitiu que o ritual esperado se realizasse.

Ainda assim, de forma “surpreendente” para mim, e acredito que ocorreu também para outros participantes, como aliás costuma acontecer em cada uma das sessões das quais participo, o trabalho espiritual, xamânico, astral, ou seja lá como possa ser denominado o que ocorre nessas esferas de consciência, aconteceu…

Posteriormente, durante o compartilhar que se manteve, alguém no grupo mencionou que todo processo de trabalho se inicia já no agendamento, ou seja na Intenção.

Minha experiência nessa noite confirma isso.

Têm chovido de forma intermitente há mais de uma semana e, a chuva tornou-se intensa e continua nas horas que antecederam o encontro desta noite de consagração. Costumo seguir o mesmo trajeto até o local de encontro, sempre pelo mesmo caminho que já conheço.

Há dias venho pensando e tentando construir uma ideia, uma intenção, para desenvolver durante o ritual de meditação com mediação da Ayahuasca. Trago claro comigo que está chegando o momento de buscar uma nova forma de atuação terapêutica, pela escuta clínica, amparado nos conhecimentos que venho acumulando na minha trajetória. Ainda não tenho a percepção de como executar concretamente esse projeto e com essa questão me dirigia para o local do encontro, pelo mesmo caminho de sempre…

Acontece que nesta ocasião, o caminho se encontrava interditado, enlameado pela condição climática. Quase atolando o automóvel, pedi socorro para o grupo e fui imediatamente resgatado por um participante que eu não conhecia até o momento. Ele me conduziu por outro caminho até o local previsto.

O " fato curioso " é que a nova rota vinha sendo sugerida pelo GPS desde o início do trajeto. Minha teimosia, insistência ou pior, hábito introjetado de seguir sempre pelo mesmo caminho me colocou diante do impasse. Lembro do dito clássico de alguém – não recordo a autoria, " ao fazer as coisas sempre da mesma maneira obtém-se o mesmo resultado", na maioria das vezes.


O vaso é realmente mágico.


A Entidade Ayahuasqueira que compartilho se denomina Vaso Mágico.

Em função das condições climáticas e da vulnerabilidade do local de consagra originalmente escolhido e diante da intempérie, as pessoas responsáveis pelo encontro, minha querida amiga Romi e seu fiel escudeiro Alê, propuseram alterar a locação do evento. Concordamos todos de imediato, ávidos pela cerimonia, imaginando ingenuamente que o processo acontece apenas com o uso do chá. Ao chegar no novo local proposto não havia energia elétrica, o que compromete significativamente a execução ritual típica.

Podemos atribuir “ao universo” ou meramente às condições climáticas, no entanto, o que importa é que precisaríamos nos adaptar às circunstâncias. Romi propôs então que passássemos direto para o compartilhar, uma experiência complementar usualmente utilizada antes do encerramento da egrégora de consagração das medicinas sagradas.

Neste momento, costuma firmar-se em cada participante a compreensão sobre as respostas as suas questões individuais que foram colocadas durante o ritual. E, esse compartilhar expande para o grupo reunido o entendimento personalizado que, muitas vezes, conversa com a necessidade dos outros.

A Força da Consagração da Ayahuasca, entretanto, atuou em cada um de nós da forma necessária aos objetivos pessoais, independente da ingestão do chá ou do uso das medicinas. A egrégora itinerante concluiu seu propósito com sucesso, como tento comprovar na elaboração deste testemunho.

Tenho estudado bastante sobre a ação das substâncias psicoativas, sobre os rituais xamânicos e sobre as medicinas da floresta para consentir em aceitar coincidências ou atribuir simplesmente ao acaso a compreensão dos fatos como relatei. O potencial terapêutico e transformador certamente está em cada um de nós. A Força está na Intenção, na ação do grupo, mas é na mediação da Ayahuasca e das medicinas que ela se produz de forma consistente e tem se manifestado para mim.

E, essa Força é necessária no conjunto da obra, não como condição exclusiva, mas surge de fato como determinante para nos tirar do transe cotidiano e domesticado com que conduzimos nossas vidas.

As medicinas da floresta retornam na modernidade conturbada como um caminho alternativo que pode ser percorrido sempre que as questões terrenas transcendam para uma esfera pouco compreendida ou aceita pela medicina clássica ocidental e podem atuar efetivamente de forma terapêutica, com resultados promissores.

Experimentar ayahuasca e percorrer esse caminho tem sido para mim essa transcendência.

Outras pessoas buscam, e talvez encontrem outro caminho nas diferentes religiosidades ou na própria existência adaptada, ou mesmo através de vivências nem sempre tão sadias ou, até comportamentos intoxicantes. Melhor dizendo, outros caminhos, já que definitivamente não existe apenas uma possibilidade para tentarmos encontrar respostas para a grande questão existencial que todos carregamos.

Acredito que a neurociência comprovará em breve o que, através das práticas ritualísticas é já, há muito tempo, intuído pelos povos ancestrais. A existência humana transcende o corpo físico e a ciência aos poucos vai se abrindo aos conhecimentos tradicionais.


Quando vivi em Portugal ouvi bastante a frase (leia-se com sotaque de Portugal)... "há muita maneira de se cozinhar o bacalhau".

Compreendo melhor essa fala, tanto tempo depois.

























 
 
 

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Psicanálise para pensar a vida além das respostas prontas.
Autor de Chimarreando com Freud.
Reflexões sobre inconsciente, sonhos, cultura e cotidiano.

© 2026 Airton Calmo — Psicanalista, autor e pesquisador.

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