Route 66 - Da estrada à trilha

Conheci a icônica Route 66 há alguns anos.
Percorri apenas um pequeno trecho dos seus quase quatro mil quilômetros, nos arredores de Los Angeles e Las Vegas. Foi uma passagem breve por uma estrada que, mais do que ligar cidades e povoados de outrora, acabou se transformando em um lugar da memória.
Um caminho que sobreviveu à própria estrada.
A Route 66, inaugurada em 1926, ligava Chicago a Los Angeles, atravessando oito estados e cerca de 2.400 milhas. Tornou-se um dos grandes símbolos da cultura automobilística norte-americana, associada à mobilidade, à liberdade, à aventura e à promessa de uma vida melhor.
Conheci apenas um pedaço dessa história.
Agora, aos sessenta e seis anos, encontro uma Route 66 muito particular.
A minha própria caminhada.
Só que, nesta nova viagem, a rota deixou de ser uma estrada quase linear. Apresenta-se mais como uma trilha. Uma encruzilhada talvez. Aqui e ali, um desvio. Às vezes uma bifurcação. Em alguns momentos, nem sequer tenho certeza de que exista um caminho propriamente dito.
Mas não quero perder a característica rústica das trilhas.
Talvez porque uma estrada tenha destino, enquanto uma trilha tem encontros, desencontros e cruzamentos. Um intenso ir e vir de pessoas, coisas e objetos.
A estrada costuma nos propor para onde devemos ir. A trilha, não raro, nos pergunta o que estamos procurando.
Foi assim que acordei hoje.
Com a lembrança da US Route 66 e a estranha sensação de que, aos sessenta e seis ciclos terrestres desta existência, havia encontrado uma outra Rota 66, muito menos asfaltada e muito mais acidentada.
Uma rota feita de lembranças. De encontros e partidas. De perdas e despedidas.
De livros e consultórios. De dentes e palavras.
De consciências e inconsciente. De mar e de mata.
De algumas certezas que envelheceram mal e de outras perguntas que, curiosamente, parecem ter ficado mais jovens.
Uma estrada chamada 66
Existe algo de curioso na expressão Route 66.
Ela parece uma coisa objetiva. Um número. Uma identificação administrativa. Uma rodovia. Um pedaço de infraestrutura ou um traçado no mapa.
Mas, em determinado momento, o número deixa de ser apenas número e torna-se símbolo.
A Route 66 foi chamada de Main Street of America, a rua principal da América. Há uma certa dose de grandiloquência nisso, naturalmente. Mas deixemos essa pequena provocação de lado.
O que me interessa é outra coisa:
Como uma estrada pode deixar de ser apenas estrada?
Como um objeto material pode adquirir uma existência simbólica?
Como uma sequência de placas, postos de gasolina, motéis, restaurantes, desertos, pequenas cidades e quilômetros percorridos pode transformar-se em memória?
Talvez seja justamente aí que a Route 66 encontre a psicanálise.
Porque aquilo que chamamos de realidade não é constituído apenas pelas coisas que existem. É constituído também pelo sentido que essas coisas adquirem para nós.
A estrada que atravessei há aproximadamente dez, doze anos não é mais aquela estrada. O homem que a percorreu também não é mais o mesmo.
O motel onde dormi talvez ainda exista. A cama provavelmente já recebeu outros corpos. O estacionamento recebeu outros automóveis. A placa luminosa pode ter sido substituída. Ou talvez o estabelecimento tenha desaparecido.
Mas alguma coisa permaneceu. Não necessariamente no lugar.
Em mim.
É justamente aí que a memória começa a se parecer com uma estrada abandonada.
O motel e Psicose, o filme
Durante aquela viagem, hospedei-me em alguns daqueles motéis de beira de estrada tão característicos dos Estados Unidos.
Nada particularmente extraordinário. Um quarto. Uma cama. Um estacionamento com automóveis parados do lado de fora.
Uma porta. Uma noite.
Hoje, porém, a lembrança daquele motel me conduz inevitavelmente a outro lugar: o Bates Motel.
Não porque o motel onde fiquei tivesse qualquer relação com o estabelecimento imaginado por Alfred Hitchcock. A aproximação é puramente associativa.
E nós, psicanalistas, sabemos que as associações têm o péssimo hábito de não pedir autorização antes de aparecer.
Bates Motel. Psicose. Hitchcock. Norman Bates.
A casa. A mãe. O duplo.
O espelho. A morte. A identidade. A ruptura.
É curioso como determinadas imagens culturais permanecem disponíveis dentro de nós durante décadas, esperando uma ocasião qualquer para reaparecer.
Hoje, aos sessenta e seis, a memória da Rota 66 trouxe o Bates Motel.
O Bates Motel trouxe Psicose, o filme. O filme Psicose de Hitchcock trouxe a psicose, estrutura psicanalítica proposta por Lacan.
Talvez seja assim que uma trilha começa: não quando sabemos para onde estamos indo, mas quando percebemos que uma coisa levou à outra.
A psicose e o problema da inscrição
É tentador dizer, de maneira simplificada, que para Lacan a psicose seria uma espécie de “falta de inscrição na linguagem”. A formulação é sugestiva, mas precisa ser tomada com cuidado.
Lacan não afirma simplesmente que o psicótico estaria “fora da linguagem”. Ao contrário: a linguagem está profundamente implicada com a estrutura da psicose. O ponto decisivo está naquilo que Lacan denomina foraclusão, especialmente a foraclusão do significante Nome-do-Pai, deixando um furo no campo simbólico.
A questão é complexa, mas também fascinante porque nos aproxima novamente da estrada.
Uma estrada não é apenas aquilo que está materialmente diante de nós. Ela também permite organizar o percurso e, nesse caso, o discurso.
Placas indicam direções. Marcos delimitam espaços.
Nomes identificam lugares. Um mapa transforma extensão em território.
Talvez seja uma das grandes contribuições de Lacan pensar que o sujeito não simplesmente possui uma linguagem. O sujeito é constituído no campo da linguagem, na relação com os significantes do Outro.
Por isso, quando penso na Rota 66, penso também em uma espécie de inscrição.
Chicago. Saint Louis. Oklahoma. Lugares que não frequentei.
Califórnia. Nevada. Las Vegas. Los Angeles. Uma pequena coleção de memórias.
Cada nome organiza uma passagem. Cada palavra abre uma direção. Cada significante oferece uma possibilidade de localização.
E talvez seja justamente por isso que uma estrada poderia se tornar metáfora da existência.
Porque viver também é tentar localizar-se.
Sessenta e seis, um significante
Hoje completo sessenta e seis anos.
Não sei exatamente quando uma pessoa começa a perceber que o número deixou de ser apenas uma contagem e começou a funcionar como símbolo. Sessenta e seis anos, nesse caso, não são simplesmente sessenta e seis anos.
São uma espécie de placa na estrada. Uma indicação de quilometragem. Um posto de abastecimento existencial.
Uma dessas placas em que a gente para, olha para trás e tenta calcular quantos quilômetros ainda faltam.
Só que existe um pequeno problema. Não sabemos quantos.
Essa talvez seja a diferença fundamental entre uma viagem rodoviária e a viagem da vida.
Na Route 66, poderíamos consultar um mapa. Na vida, não existe essa possibilidade.
E talvez seja melhor assim.
Se soubéssemos previamente o número de quilômetros, talvez passássemos boa parte da viagem preocupados demais com o destino para perceber a paisagem, o entorno e as pessoas que cruzam nosso caminho.
Hoje pela manhã, saí para pedalar no meu lugar favorito.
O mar estava bonito. Frio, mas bonito e ensolarado. Havia aquele vento insistente, típico de certos dias em que o inverno parece não ter recebido a informação oficial de que já deveria terminar.
E lá está Nina, minha filhota felina. Flutuando nas ondas do Ouvidor.
Nina não precisa de rotas ou caminhos. Ela tem o seu próprio território.
E, de algum modo, flutua eternamente nas minhas lembranças.
Foi então que me lembrei de Freud.
A transitoriedade
Em novembro de 1915, Freud escreveu “Sobre a transitoriedade” (Vergänglichkeit), texto publicado no ano seguinte.
O ensaio nasce em meio à Primeira Guerra Mundial e gira em torno de uma questão aparentemente simples, mas de consequências profundas: o que acontece com o valor de uma coisa quando sabemos que ela é passageira?
Freud relata um passeio com um poeta e um amigo em uma paisagem de verão. O poeta admirava a beleza, mas sofria justamente porque sabia que aquela beleza desapareceria.
Para Freud, entretanto, a transitoriedade não necessariamente diminui o valor das coisas. Em certo sentido, pode até aumentá-lo.
A flor não vale menos porque murcha. A paisagem não vale menos porque muda.
A juventude não vale menos porque termina. Uma vida não vale menos porque é finita.
É uma ideia extraordinariamente simples. E extraordinariamente difícil de sustentar.
Porque sabemos que tudo passa, mas nos comportamos muitas vezes como se algumas coisas devessem permanecer.
Freud percebeu isso no contexto devastador da guerra. Enquanto escrevia sobre a transitoriedade, a Europa estava mergulhada na Primeira Guerra Mundial. Cidades, paisagens, corpos, vínculos e formas de vida estavam sendo destruídos em escala inédita.
E aqui aparece uma ponte importante com “Luto e melancolia”, escrito pouco tempo depois.
A perda não é apenas um acontecimento externo. Ela exige um trabalho psíquico.
O objeto desaparece, mas sua presença psíquica permanece.
É justamente essa permanência paradoxal que torna o luto tão complexo.
O mar, Nina e aquilo que permanece
Foi no Ouvidor que percebi novamente a diferença entre permanência e conservação.
O mar não conserva nada. A onda chega e desaparece. Outra ocupa seu lugar. E outra.
Nenhuma onda é a mesma. Entretanto, quando olhamos para o mar, temos a impressão de continuidade.
Talvez nossa vida seja alguma coisa parecida.
Não somos os mesmos que fomos aos vinte. Nem aos trinta. Nem aos quarenta.
Nem mesmo somos exatamente os mesmos que éramos ontem.
O corpo mudou. Os desejos mudaram. As relações mudaram. Alguns sonhos foram ou continuam sendo realizados. Outros morreram.
Alguns foram simplesmente abandonados numa curva qualquer da estrada.
Mas existe alguma coisa que reconhecemos como sendo nossa.
Freud chamaria nossa atenção para o trabalho da memória, do investimento libidinal e da elaboração da perda.
Jung acrescentaria outra dimensão: o símbolo.
Para Jung, imagens, mitos e símbolos podem expressar processos de transformação psíquica que não se deixam reduzir inteiramente ao pensamento racional.
E aqui, acho, minha trilha pessoal começa a ficar mais interessante.
Porque a Rota 66 sempre foi, para mim, mais do que uma estrada. Costumava ser um símbolo.
O mar é um símbolo de passagem. A trilha é um símbolo de passagem.
A própria idade é um símbolo de passagem.
E o aniversário, esse curioso ritual anual em que celebramos simultaneamente o nascimento e a aproximação da morte, talvez seja um dos mais antigos marcadores simbólicos da nossa condição transitória.
Freud e Jung encontram-se na trilha
Não pretendo transformar Freud e Jung em dois velhos amigos caminhando de mãos dadas, como crianças, pela Praia do Ouvidor, embora a ideia seja tentadora.
Seria uma imagem simpática, mas historicamente pouco recomendável.
Freud e Jung tiveram uma relação complexa, intensa, marcada por convergências, divergências e uma ruptura importante para a história da psicanálise e da psicologia analítica.
Não é preciso apagar essa diferença para colocá-los em diálogo. Aliás, talvez seja justamente a diferença que torne o diálogo produtivo.
Freud oferece instrumentos extraordinários para pensar o desejo, a perda, o conflito, o inconsciente e o trabalho psíquico diante daquilo que nos falta.
Jung amplia a discussão em direção aos símbolos, aos arquétipos, aos processos de transformação e à individuação.
E talvez eu possa caminhar entre os dois sem precisar escolher uma estrada exclusiva.
Afinal, minha própria formação parece ter sido construída assim.
Comecei pela farmácia e odontologia. Passei pela antropologia. Descobri Freud e me aproximei da psicanálise. Conversei com Jung pelo caminho. E estou prestes a aprofundar-me no xamanismo.
Essa é a minha rota, aos 66.
E, em algum ponto dessa trajetória, percebi que a linguagem estava sempre por perto.
Como uma placa discreta na beira da estrada.
A trilha e o símbolo
Não vejo necessidade de transformar o símbolo em uma explicação sobrenatural.
Talvez seja justamente mais interessante não fazê-lo. O símbolo não precisa ser uma senha para o sobrenatural.
Pode ser uma forma de a experiência humana dizer aquilo que a linguagem conceitual ainda não consegue dizer inteiramente.
Uma trilha pode ser apenas uma trilha. Mas também pode tornar-se imagem de uma passagem.
O mar pode ser apenas água em movimento. Mas pode carregar, para quem o contempla, a imagem daquilo que nunca permanece igual.
Uma árvore pode ser uma árvore. Ou pode ser árvore ancestral, eixo, crescimento, enraizamento, ligação entre terra e céu.
É nesse ponto que uma aproximação com o xamanismo começa a fazer sentido para mim.
Não como uma tentativa de transformar psicanálise em religião. Nem de transformar religião em psicologia. Muito menos de utilizar o xamanismo como uma espécie de decoração exótica para um discurso psicanalítico.
O que me interessa é a experiência humana de perceber a natureza não apenas como cenário, mas como participante de uma narrativa simbólica.
A floresta fala. O rio fala. A montanha fala.
O animal aparece. O sonho aparece. A planta aparece.
E o ser humano, diante disso, precisa decidir se está disposto a escutar.
Talvez seja essa a verdadeira Trilha do Ouvidor.
Não apenas uma trilha para algum lugar. Uma trilha simbólica para a escuta.
A estrada que termina e a trilha que continua
Existe uma diferença importante entre terminar uma estrada e terminar uma viagem.
A Route 66 foi desativada oficialmente em 1985. Mas sua morte administrativa não produziu seu desaparecimento simbólico. Pelo contrário: partes do antigo trajeto, edifícios, postos, motéis e marcas da estrada foram preservados justamente porque a rota havia adquirido outro estatuto.
Deixou de funcionar como grande artéria nacional e passou a existir como patrimônio, memória e símbolo.
Talvez a vida também funcione assim. Algumas estradas deixam de cumprir sua função original, mas não desaparecem. Transformam-se em memória.
Uma profissão pode terminar e continuar dentro de nós.
Um relacionamento pode terminar e continuar dentro de nós.
Uma cidade pode ser abandonada e continuar dentro de nós.
Uma pessoa, ou um felino, pode morrer e continuar dentro de nós.
Uma parte da nossa própria identidade pode desaparecer sem que desapareçamos com ela.
A transitoriedade não significa simplesmente desaparecimento.
Significa, antes, transformação na forma de presença.
A coisa desaparece. O símbolo permanece.
O objeto se transforma. A imagem continua trabalhando.
A vida segue. Como rotas sucessivas 66, 67, 68…
E então aparece o mundo
É praticamente impossível escrever sobre transitoriedade sem olhar, ainda que brevemente, para o mundo em que estamos vivendo.
Freud escreveu seu ensaio durante uma guerra que parecia capaz de destruir a própria ideia de civilização europeia.
Hoje, mais de um século depois, continuamos convivendo com guerras, ameaças, radicalizações, disputas geopolíticas, destruição ambiental e uma aceleração tecnológica que muitas vezes parece não perguntar ao ser humano se ele está preparado para acompanhar a velocidade das próprias invenções.
Não quero fazer deste texto um ensaio político.
Até porque a política, quando entra sem convite, costuma ocupar a sala inteira.
Prefiro deixar apenas uma pergunta:
O que acontece quando uma espécie que sabe que é mortal passa a construir instrumentos capazes de multiplicar enormemente sua capacidade de destruição?
Talvez o problema não esteja na tecnologia em si.
A questão talvez seja o que fazemos com aquilo que a tecnologia coloca em nossas mãos.
A tecnologia não possui, por si só, uma ética. Nós precisamos fornecê-la.
E isso vale igualmente para as tecnologias digitais que agora reorganizam nossa relação com trabalho, informação, imagem, intimidade e conhecimento.
A velocidade aumentou. A condição humana, entretanto, continua sendo a mesma.
Continuamos nascendo. Continuamos desejando. Continuamos perdendo.
Continuamos amando. Continuamos tentando encontrar sentido.
E continuamos morrendo.
A psicose de uma época
Talvez por isso a lembrança de Psicose, o filme de Hitchcock, tenha reaparecido.
Não porque eu queira diagnosticar uma sociedade inteira. Seria uma utilização indevida da própria psicanálise.
A psicose, em Lacan, não é simplesmente uma metáfora para irracionalidade, violência ou desorganização social. É uma estrutura clínica complexa, articulada a mecanismos específicos de constituição do sujeito e à foraclusão de um significante fundamental.
Ainda assim, existe algo literariamente provocador em perguntar se uma época pode produzir experiências de desorientação simbólica.
Não no sentido clínico. No sentido cultural.
O excesso de informação. A dificuldade de distinguir realidade, narrativa e propaganda.
A transformação da palavra em arma. A substituição da conversa pelo enfrentamento.
A velocidade com que uma mentira pode atravessar milhões de pessoas.
Tudo isso nos coloca diante de um problema contemporâneo da linguagem.
Quando as palavras perdem estabilidade, o que acontece com a experiência compartilhada da realidade?
Talvez não seja necessário responder.
Basta formular a pergunta.
Afinal, uma das funções de uma trilha é justamente levar-nos até lugares onde ainda não existe estrada.
O velho que continua caminhando
Aos sessenta e seis anos, não me sinto particularmente inclinado a transformar a idade em um monumento. Sessenta e seis é, e continua sendo, apenas um número.
Até que alguém lhe dê um sentido. E foi isso que aconteceu comigo hoje.
Route 66. Uma velha estrada americana. Uma viagem de pouco mais de dez anos atrás.
Um motel de beira de estrada. Bates Motel. Hitchcock. Psicose.
Lacan. Freud.
Transitoriedade. Luto.
Jung. Símbolo.
Mar. Nina e o Ouvidor.
Xamanismo.
E eu.
Tudo isso poderia parecer uma associação um tanto delirante.
Mas não é justamente assim que uma lembrança começa?
Uma coisa chama outra. Uma associação acorda outra.
Uma imagem abre uma porta. Uma porta leva a um quarto.
No quarto há uma memória. Na memória há uma pessoa ou um animal.
Na pessoa há uma falta. Na falta aparece o desejo.
E, quando percebemos, estamos novamente caminhando.
Talvez o inconsciente tenha menos a forma de uma estrada do que a de uma trilha.
Ele não respeita mapas turísticos. Não segue placas oficiais.
Não pergunta se estamos preparados. Simplesmente aparece, desaparece e reaparece sem muita cerimônia.
E, às vezes, muda completamente o itinerário.
Minha Route 66
A Route 66 que percorri há aproximadamente dez, doze anos atrás, era uma estrada.
Esta, aos sessenta e seis, é outra coisa.
É uma trilha. A minha rota aos 66.
E talvez eu esteja começando a compreender por que a palavra trilha passou a ocupar tanto espaço na minha própria narrativa.
Uma estrada é construída. Uma trilha é encontrada.
Uma estrada pretende conduzir. Uma trilha convida à descoberta.
A estrada tem sinalização. A trilha tem marcas que podem ou não sinalizar algum caminho.
A estrada tem quilometragem. A trilha tem pegadas.
A estrada possui um destino. A trilha possui possibilidades.
Talvez a psicanálise seja mais próxima da segunda.
Não porque o analista saiba exatamente onde o analisando deve chegar. Mas justamente porque não sabe.
A escuta acompanha. O sujeito fala. Uma palavra tropeça em outra.
Um silêncio aparece.
Uma lembrança retorna. Um sintoma insiste.
E, de repente, alguma coisa muda de lugar.
Não necessariamente porque encontramos uma resposta.
Às vezes, porque encontramos uma pergunta melhor.
Foi assim que cheguei aos sessenta e seis.
Não exatamente onde imaginava.
Mas talvez exatamente onde precisava estar para continuar perguntando.
A transitoriedade não é o fim
Freud percebeu, em 1915, que a transitoriedade poderia ser encarada de outro modo.
Aquilo que passa não perde necessariamente seu valor. Pode, sim, adquirir outro.
Uma flor que dura uma manhã não é menos flor.
Uma onda que dura alguns segundos não é menos onda.
Uma infância que termina não é menos infância.
Uma vida que termina não é menos vida.
Talvez a beleza esteja justamente no fato de que não podemos segurá-la.
Nina continua flutuando nas ondas do Ouvidor. Não sei se eternamente.
É provável que não. Mas a imagem ficou.
E talvez seja isso que fazemos uns com os outros.
Passamos. Deixamos pegadas. Levamos marcas.
Transformamos experiências em histórias. Histórias em símbolos. Símbolos em trilhas.
E seguimos.
Hoje, no meu aniversário de sessenta e seis anos, minha antiga passagem pela Route 66 voltou.
Não veio acompanhada de automóvel, mapa ou passaporte.
Veio pela memória. Trouxe um motel. Trouxe Hitchcock.
Hitchcock trouxe Psicose. Psicose trouxe Lacan.
Lacan trouxe a linguagem. A linguagem reabriu o caminho para Freud.
Freud trouxe a transitoriedade. A transitoriedade encontrou Jung.
Jung abriu a porta dos símbolos. Os símbolos encontraram o mar.
O mar encontrou Nina.
E Nina flutua livre no mar e no céu do Ouvidor.
Talvez seja esse o círculo de que eu falava no início.
Mas, pensando melhor, não é exatamente um círculo. É uma espiral.
Voltamos ao mesmo lugar, mas nunca somos exatamente os mesmos.
A onda retorna, mas não é a mesma onda.
O aniversário retorna, mas não somos a mesma pessoa.
A memória retorna, mas o passado já mudou de significado.
A trilha retorna ao ponto de partida, mas alguma coisa em nós se deslocou.
Heráclito já havia percebido que ninguém pode se banhar duas vezes no mesmo rio.
Talvez envelhecer seja isso. Não apenas percorrer quilômetros.
Mas aprender que o caminho também nos percorre.
E que, quando a estrada termina, nem sempre é hora de parar.
Às vezes é justamente quando começa a trilha.
A minha Route 66, agora, não aponta para Chicago nem para Los Angeles.
Ela aponta para o Ouvidor. Setecentos e cinquenta metros de areia, mar, sol e pessoas que vêm e vão.
E talvez não leve a lugar algum. Talvez leve apenas à escuta.
Por enquanto, isso me basta.
Aos sessenta e seis, prefiro a trilha.
O mar continua chegando. A onda continua partindo.
Nina continua flutuando.
E eu continuo caminhando ou pedalando a bicicleta.




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