A nova febre das canetas injetáveis e o retorno do mal-estar

Atualmente estamos assistindo uma transformação silenciosa, e estrondosa ao mesmo tempo, na forma como a sociedade lida com o corpo, o peso e o desejo de emagrecer.
As chamadas “canetas emagrecedoras”, baseadas em substâncias como a semaglutida, deixaram de ser um recurso médico restrito e passaram a ocupar o centro de uma nova cultura do emagrecimento. Em 2025, seu consumo cresceu 88%, movimentando bilhões e alterando inclusive o cenário de tratamentos tradicionais. Paralelamente, a procura por cirurgia bariátrica — outrora símbolo máximo da intervenção radical sobre o corpo — caiu cerca de 20%.
De qualquer forma, trata-se do culto à estética do corpo artificialmente construído ou modificado.
Transitamos em pouco espaço de tempo do bisturi à caneta. Muda o método, mas mantém-se o imperativo.
Se, há poucos anos, vivíamos o auge da chamada “epidemia bariátrica”, hoje testemunhamos uma transição: do corpo operado ao corpo medicado.
A lógica, no entanto, permanece intacta; eliminar o excesso — o excesso de peso, de corpo, de presença. Entretanto, a questão deixa de ser meramente técnica. Torna-se psíquica.
Estudos mostram que a cirurgia bariátrica ainda apresenta maior eficácia em perda de peso sustentada. O fascínio pelas canetas não está na superioridade clínica, mas na promessa simbólica de emagrecer sem ruptura visível, transformar o corpo sem atravessar o trauma cirúrgico e obter resultados rápidos e discretos.
Em termos psicanalíticos, trata-se da passagem de um ato radical para uma ilusão de controle contínuo.
Aqui emerge um ponto negligenciado — e talvez o mais relevante. o corpo muda mais rápido que a compreensão do eu. O corpo pode emagrecer em semanas, mas o sujeito não se reorganiza na mesma velocidade. Quando o espelho reflete um estranho sobrevêm a crise de identidade. Surge então um fenômeno clínico cada vez mais frequente: estranhamento diante da própria imagem, dificuldade de reconhecimento corporal e sensação de “não sou eu” diante do espelho
Esse descompasso revela algo fundamental. Demonstra que o corpo não é apenas a biologia — é também inscrição psíquica.
Quando a transformação é acelerada por dispositivos externos (cirurgia ou fármaco), o psiquismo pode não acompanhar a nova configuração corporal. O resultado não se traduz em satisfação e pode surgir em paralelo uma angustiante desorganização identitária.
Há um paralelismo importante entre os dois fenômenos, cirurgia bariátrica e canetas emagrecedoras. Enquanto uma produz uma mudança radical a outra apresenta a perspectiva de uso contínuo. Uma traz alteração abrupta enquanto a outra propõe a mudança progressiva. Entretanto, ambos compartilham um núcleo comum; a tentativa de controle do corpo como resposta ao mal-estar, o deslocamento do sofrimento psíquico para o corpo biológico e a constante busca por uma solução externa para um conflito interno.
Não são poucos os casos em que muitos pacientes retomam peso após interrupção do tratamento medicamentoso ou enfrentam recaídas após a cirurgia. O sintoma retorna — muitas vezes sob outra forma, tornando claro o mecanismo da repetição psíquica apontada por Freud.
O grande risco contemporâneo apresentado pela tecnologia, da bariátrica às canetas, é produzir uma irremediável identidade farmacologicamente assistida. A popularização de cirurgias e substâncias inaugura um novo cenário onde os corpos mostram-se cada vez mais ajustáveis frente a identidades cada vez mais instáveis.
Se antes o sofrimento psíquico podia surgir ligado ao excesso de peso, agora aparece conectado à manutenção de uma imagem que introduz o medo constante de recuperar o peso perdido artificialmente, a dependência do medicamento e uma vigilância não sadia e paranoica sobre o próprio corpo.
A questão deixa de ser “como emagrecer” e passa a ser “quem sou eu” nesse novo corpo que construí artificialmente?
Caminhamos para constatar que o sintoma não desaparece, apenas se desloca. A ascensão das canetas emagrecedoras não representa só um avanço farmacológico. Apresenta-se como um novo sintoma cultural que revela, além de uma sociedade intolerante ao excesso, a relação instrumental com o corpo e uma crescente dificuldade de elaboração psíquica.
O risco não aparece no medicamento em si, que tem seu lugar legítimo como ferramenta clínica da medicina, o descompasso está no uso simbólico que tem sido feito dele. Transformar uma finalidade terapêutica em promessa de salvação subjetiva.
E isso, como a clínica já nos ensinou, costuma cobrar um preço.




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