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A Esquina do Mal-Estar: O Império Farmacêutico e a Sedação da Subjetividade

Foto do escritor: Airton Calmo
Airton Calmo
27 de mar.
3 min de leitura

Quem caminha pelos cruzamentos de qualquer grande cidade brasileira, e mais recentemente nas pequenas também, depara-se com uma curiosa arquitetura do capital: nas esquinas onde outrora habitavam cafés, livrarias ou o comércio de bairro, hoje se erguem templos de luz branca e prateleiras infinitas. 

A proliferação das grandes redes de farmácias não é apenas um fenômeno imobiliário ou econômico; mostra a manifestação física de um projeto de sociedade que busca silenciar o sujeito através da química.


Na geografia do sintoma, cada terreno de esquina é disputado pelas grandes redes. O comércio de qualquer produto que possa anestesiar a dor da existência humana disputa e vence os espaços de convívio sadio. Segundo dados da Abrafarma (Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias), o setor de comércio farmacêutico tem registrado crescimentos anuais sucessivos, mesmo em períodos de crise econômica. 


Em cidades como Porto Alegre, a proliferação do mercado da medicalização extensiva é visível. Essa conquista de território nas esquinas estratégicas espelha a tentativa de ocupação e preenchimento total do tempo e do espaço do sujeito. Onde há um cruzamento, há uma possibilidade de escolha; onde há uma farmácia, há a promessa de uma solução rápida para a angústia através dessa escolha. 

Como bem pontuou o psicanalista Contardo Calligaris, vivemos sob o despotismo de uma “obrigação de ser feliz”. Nesse cenário, a farmácia torna-se a oficina mecânica de uma subjetividade que não tem mais o direito de sofrer as agruras normais da vida; qualquer desvio da alegria compulsória é lido como um defeito a ser consertado no balcão mais próximo.


A droga legalizada, o fármaco prescrito e legitimado pela medicina ocidental, tornou-se objeto de consumo e ascendeu ao patamar de “calaboca psíquico”. Compreendemos que viver no sistema capitalista implica conviver com um intenso convite ao consumo. Mais que o próprio convite, o incentivo ao consumo desenfreado de medicamentos torna o sujeito refém do próprio mal-estar. Sob a ótica psicanalítica, traduz-se o que assistimos como um deslocamento planejado do desejo para o consumo.


A medicalização da sociedade - fenômeno amplamente debatido por autores como Michel Foucault - propõe que o sofrimento ético e existencial seja lido estritamente como uma disfunção neuroquímica. Para a psicanalista Maria Rita Kehl, o sintoma - muitas vezes manifestado como depressão ou desânimo - é um pedido de pausa, uma forma de resistência do sujeito ao ritmo frenético da produção. No entanto, ao oferecermos uma pílula em cada esquina, operamos um sequestro desse tempo subjetivo. A medicalização não cura o sofrimento; ela apenas devolve o indivíduo, anestesiado, à engrenagem que antes o adoeceu em primeiro lugar.


A distribuição massiva de substâncias como a Sertralina (um dos antidepressivos mais consumidos no SUS) e o avanço dos substitutos da Ritalina (como o Venvanse/Lisdexanfetamina) revelam um imperativo de performance. Não se tolera mais o luto, o tédio ou a agitação infantil. Se o sujeito não produz, ele é ajustado quimicamente. A farmácia na esquina é o posto de manutenção desse sujeito-máquina.


O papel do poder público nessa automedicação introjetada é evidente. O Estado, ao tratar a saúde mental quase exclusivamente através da dispensação de psicotrópicos, corrobora com a lógica da Big Pharma. Dados da Anvisa (SNGPC) apontam que o Brasil é um dos maiores consumidores mundiais de benzodiazepínicos e estimulantes. A automedicação torna-se uma prática de "autogestão do eu": o indivíduo, capturado pelo discurso capitalista, torna-se o próprio vigilante de sua felicidade química, interpretando qualquer flutuação de humor como uma patologia a ser erradicada. É perceptível diariamente, em qualquer unidade de saúde Brasil afora, a demanda voraz dos pacientes que buscam prescrição para o "aditivo" ser obtido na farmácia pública, dita popular, para suportar o insuportável.


Entretanto, a face mais cruel e desoladora é constatar que a presença da farmácia em cada esquina representa um monumento ao nosso fracasso em escutar o mal-estar. Enquanto a psicanálise aposta na palavra e na sustentação da falta, a hegemonia farmacêutica aposta no tamponamento químico. Entristece perceber que o sujeito, já amortecido, nem procura mais outra solução que não seja o remédio.


É preciso urgentemente questionar: o que estamos tentando não ouvir quando atravessamos a rua para comprar a próxima caixa de comprimidos? 


Espera-se que, ao transformar esse questionamento em algo coletivo, possamos acender um alerta às autoridades sanitárias para oferecer mais escuta do que medicalização nas Unidades Básicas de Saúde. Talvez o SUS, assumindo seu papel na educação em saúde da população, possa desencadear essa mudança de paradigma que seria deixar emergir o sujeito da massa anestesiada.


Referências:

- Abrafarma (Indicadores de Mercado 2023/2024).

- Anvisa/SNGPC (Dados sobre o consumo de psicotrópicos no Brasil).

- CALLIGARIS, Contardo. A Hipótese da Felicidade.

- KEHL, Maria Rita. O Tempo e o Cão: a atualidade das depressões.

- Fórum Sobre Medicalização da Educação e da Sociedade.



 
 
 

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Psicanálise para pensar a vida além das respostas prontas.
Autor de Chimarreando com Freud.
Reflexões sobre inconsciente, sonhos, cultura e cotidiano.

© 2026 Airton Calmo — Psicanalista, autor e pesquisador.

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