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Causo #2 da série "Chimarreando com Freud" : O Motor e o Silêncio

Foto do escritor: Airton Calmo
Airton Calmo
21 de mar.
2 min de leitura


Durante quarenta anos, o som da minha vida foi um Sol sustenido. Era o ruído da caneta de alta rotação, aquele zunido metálico que, para o paciente, soa como tortura medieval, mas para o dentista é o som do dever cumprido. Eu sabia precisamente onde a cárie terminava ou onde a resina começava. Havia uma segurança tátil, uma resposta imediata: você intervém, pronto, o problema some.

Mas a alma, descobri tarde ou cedo, não aceita obturação.

O sujeito desta manhã veio de longe. Estacionou o carro de luxo na areia da praia como se estivesse invadindo um território inimigo. Caminhou até o rancho, entrou e ficou olhando para as minhas mãos.

— Onde estão os aparelhos, doutor? — perguntou, com os olhos fixos na mesa onde repousava apenas a cuia e um volume gasto de A Interpretação dos Sonhos.

— O único aparelho aqui é o ouvido. E, de vez em quando, a chaleira — respondi, oferecendo o primeiro mate.

Ele sentou, mas não relaxou. Estava acostumado com anestesia. Queria algo que lhe tirasse a dor da existência sem que ele precisasse sentir o processo. Olhou para o mar, depois para mim, e soltou:

— Eu sinto uma pressão. Aqui. — Apontou para o peito, mas a mandíbula estava tão rígida que as palavras saíam quadradas.

Eu sorri por dentro. O “velho dentista” que ainda habita em mim quis logo diagnosticar uma disfunção temporomandibular, prescrever um miorrelaxante e uma placa de Michigan. Mas o “novo analista” apenas serviu mais água quente para outro mate.

— No consultório de lá, a gente resolvia a pressão com broca. Aqui no rancho, a gente resolve com falta.

— Falta de quê? — ele quis saber, irritado.

— Falta de resposta pronta.

Ficamos em silêncio. Um minuto. Dois. O som das ondas batendo nos pilares do rancho começou a ocupar o espaço que antes era preenchido pelo zunido do motor cortando esmalte. O silêncio na psicanálise é a broca mais potente que existe: ela perfura as camadas de verniz que a gente passa na vida para parecer funcional.

De repente, sem aviso, o sujeito chorou. Não foi um choro de dor de dente. Foi um choro de quem percebeu que passou tantos anos mastigando a própria vida sem nunca sentir o gosto de nada.

— Eu não consigo parar de morder, doutor — confessou, entre um gole e outro de mate.

— Pois é. O problema da mordida é que, às vezes, a gente se confunde e acha que o mundo é o alimento, quando na verdade estamos devorando a nós mesmos.

Saímos do rancho para uma caminhada na beira da água. O “luto da técnica” que, as vezes, ainda noto em mim — aquela saudade da segurança do diagnóstico exato — desapareceu ali. Percebi que substituir o motor de alta rotação pela palavra não era mais uma perda. Era apenas trocar a intervenção no esmalte do dente pela escuta do que é persistente, eterno e muitas vezes, sem sentido.

Naquela manhã, ao final da sessão, ninguém saiu com dente novo. Mas ele seguiu caminhando pela praia com a boca que, pela primeira vez, não servia apenas para morder, mas para falar, dizer as coisas que aliviam a dor, mais do que a anestesia.


 
 
 

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Psicanálise para pensar a vida além das respostas prontas.
Autor de Chimarreando com Freud.
Reflexões sobre inconsciente, sonhos, cultura e cotidiano.

© 2026 Airton Calmo — Psicanalista, autor e pesquisador.

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