O Nó na Mandíbula e o Nó na Alma

O sujeito entra no rancho com a elegância de quem carrega um piano desafinado nas costas. Ele olha para o Atlântico como se o mar fosse um balancete mensal que ele esqueceu de fechar.
— Bonito aqui, doutor. Mas não venta demais? — pergunta ele, ajeitando o terno que parece dois números menor do que a sua ansiedade.
— O vento ajuda a levar o que a gente não consegue engolir — respondo, enquanto ajeito a cuia. O som da bomba roncando no final do mate é o meu único instrumento de medição.
Quarenta anos olhando para bocas me deram um superpoder indesejado: eu vejo o bruxismo antes mesmo de ver os dentes. Aquele músculo masseter saltado, rígido como um cabo de aço de balsa, denuncia que ele passou a noite mastigando problemas que não têm solução antes das oito da manhã.
— Vim porque minha mulher disse que eu ia acabar quebrando os dentes. O dentista quis me dar uma placa de silicone. Eu disse que não sou lutador de boxe para usar protetor.
Sirvo um mate. Ele olha para a cuia com desconfiança, como se o inconsciente pudesse sair dali junto com a erva.
— A placa protege o dente, mas não cura a vontade de morder o mundo — digo, num tom de quem comenta a previsão do tempo.
Ele para. O mar dá uma quebra maior na beira da praia, um estrondo que preenche o silêncio que ele não consegue sustentar.
— Eu não quero morder o mundo, doutor. Eu só queria soltar. Mas se eu soltar agora, parece que eu desmonto.
Ali, entre o cheiro de maresia e o calor da cuia, o piano nas costas dele solta a primeira nota.
— Pois então toma um mate. O mar não vai fugir. E o seu inconsciente, pelo que estou vendo, já está fazendo água faz tempo.
💬 E você? Qual é o "causo" que a sua mandíbula está tentando contar hoje? Conta aqui nos comentários (ou guarda pra análise).
Salva esse post 📌 para ler quando a tensão apertar e lembre-se: o mar não vai fugir.




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